Cinco livros para filosofar com escritores negros brasileiros

Fernando de Sá Moreira

O professor de filosofia Fernando de Sá Moreira indica cinco livros para conhecer o pensamento de escritores negros brasileiros

Existem diversos livros escritos por intelectuais negros no Brasil. Alguns possuem todas as credenciais acadêmicas e são produzidos dentro do campo mais estrito da filosofia profissional. Mas, na verdade, grande parte do pensamento filosófico afro-brasileiro não obedece sempre a essas condições. Podemos dizer que a atividade filosófica promovida por negros e negras no Brasil é centenária, anterior mesmo à formalização em nosso país da área de conhecimento universitário chamada “filosofia”. Por mais que se tentasse, por meio da cruel escravização e da violência a que foram submetidos corpos negros, nunca foram capazes de matar nos africanos e seus descendentes a capacidade e o esforço de pensar profundamente a si e o mundo. Falando de modo amplo, de pensar filosoficamente.

Na verdade, nem todas as contribuições negras à filosofia no Brasil estão expressas na forma de livros, tampouco foram registradas em cursos acadêmicos de filosofia. É com isso em mente que a lista a seguir foi formulada. Alguns dos indicados não são reconhecidos unanimemente como filósofos, mas todos enfrentaram de forma radical e ousada questões incômodas, sobre as quais valia a pena pensar filosoficamente. Em outras palavras, todas as autoras e autores abaixo têm algo a nos dizer e a dizer ao próprio campo da filosofia acadêmica e profissional em nosso país.

O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado
Abdias Nascimento (Perspectiva, 2017)

Este não costuma ser pensado como um livro de filosofia. A bem da verdade, é mesmo um livro difícil de classificar. Ele passa por muitas áreas do conhecimento, assim como seu próprio autor. Abdias do Nascimento se tornou uma referência de primeira ordem para pensar o enfrentamento ao racismo no Brasil e no resto do mundo. Ele esteve diretamente envolvido em diversas das mais importantes realizações artísticas, políticas e culturais do movimento negro, ao longo de todo o século 20 e primórdios do século 21. “O genocídio do negro brasileiro” foi um livro redigido e publicado durante seu exílio na Nigéria em 1977. É uma obra de valor inestimável para diversas áreas da filosofia: filosofia da cultura, ética, filosofia política, filosofia da educação, epistemologia e estética.

O ensino de filosofia e a lei 10.639
Renato Noguera (Pallas, 2014)

Estamos observando na última década no Brasil um aumento significativo de publicações acadêmicas sobre negros e a partir de perspectivas negras. Infelizmente, é ainda cedo para dizer que esse seja um campo verdadeiramente consolidado nas universidades brasileiras. Em todo caso, alguns importantes avanços foram alcançados. O trabalho do professor Renato Noguera tem sido particularmente marcante. “O ensino de filosofia e a lei 10.639” é uma obra ousada que destaca a responsabilidade de professores de filosofia, em todos os níveis de ensino, de fazer cumprir a lei que exige a incorporação do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação nacional. É um livro curto e de leitura muito agradável, ainda que bastante provocativa. O autor apresenta diversas posições filosóficas interessantes a respeito da própria definição de filosofia e de sua origem. Nesse processo, defende que a filosofia não tem um surgimento único e que pode ser encontrada mesmo antes dos gregos — nos escritos do Egito Antigo, por exemplo.

Quarto de despejo: diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus (Ática, 2014)

Escrito por Carolina enquanto morava na favela do Canindé em São Paulo entre 1955 e 1960, este diário é um dos livros mais importantes da literatura brasileira. Embora ele pudesse certamente ser mais lido pelo público em geral, é uma obra relativamente bem estudada em cursos superiores de letras e sociologia. Porém, talvez seja o caso de propor ainda que essa obra seja observada a partir do olhar da filosofia. É certo que Carolina Maria de Jesus não produziu uma obra de filosofia sistemática, todavia ela foi capaz de fornecer interpretações originais e profundas sobre si e sobre o mundo. De fato, ela tinha uma rara autonomia intelectual ao abordar temáticas próprias da reflexão filosófica, como política, amor, feminilidade, relações sociais, escravidão, negritude, pobreza e ética.

Pequeno manual antirracista
Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2019)

Filósofa e coordenadora da coleção Feminismos Plurais, Djamila Ribeiro obteve bastante visibilidade nos últimos anos. Recentemente ela publicou esse pequeno e interessante ensaio. O texto é relativamente simples em sua forma, até porque pretende conversar com um público amplo, com pessoas sem grande formação prévia no debate sobre as relações raciais e o antirracismo no Brasil. São 11 capítulos curtos, cada um deles focado na explicitação de atitudes antirracistas que podem ser adotadas pelos leitores e leitoras. Não é, decerto, a última leitura que alguém deve empreender sobre o tema, mas funciona bem como um ponto de partida e como um convite a ação antirracista.

O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação
Megg Rayara Gomes de Oliveira (Primas, 2017)

Uma característica muito comum no pensamento negro brasileiro é o exercício de reflexão sobre o mundo a partir das experiências e vivências. Mas esse exercício de pensar o que é local e individual não exclui, naturalmente, a capacidade de relacionar isso tudo com contextos mais amplos. Nesse sentido, a professora doutora Megg Rayara Gomes de Oliveira figura nesta lista. No livro, ela não debate apenas suas próprias experiências como professora travesti negra, mas também promove um diálogo fundamental com outros quatros professores que se identificam simultaneamente como negros e gays afeminados, viados e/ou bichas. As análises do livro fazem ótimas contribuições ao campo da filosofia da educação, ao refletir sobre as perspectivas vivenciais e teóricas de indivíduos normalmente marginalizados ao longo de todo seu percurso formativo. Esses são indivíduos que optaram por retornar como professores ao território da escola e da universidade, lugares onde foram alvo de constante racismo e violência contra suas identidades de gênero e sexualidade.

Fernando de Sá Moreira é doutor em filosofia e professor de filosofia da educação e epistemologia das ciências da educação da UFF (Universidade Federal Fluminense), escreveu “Schopenhauer e Nietzsche: um confronto filosófico sobre quem nós somos” (Humanitas/CRV) e traduziu “Sobre a impassividade da mente humana” de Anton Wilhelm Amo, disponível para download.

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