Francisco: que a religião não se torne ideologia

WillianPereira
WillianPereira
12 de October de 2019

Em seu discurso em italiano, o Papa, continuando o ciclo de catequese sobre os Atos dos Apóstolos, concentrou sua meditação no tema: “O instrumento que escolhi para mim” (Atos 9:15). Saulo, de perseguidor a evangelizador. (Trecho bíblico: dos Atos dos Apóstolos, 9, 3-6).

O discurso é de Papa Francisco, publicado por Avvenire, 10-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o discurso.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! A partir do episódio do apedrejamento de Estevão, aparece uma figura que, ao lado de Pedro, é a mais presente e incisiva nos Atos dos Apóstolos: a de “um jovem chamado Saulo” (At 7,58). É descrito no começo como alguém que aprova a morte de Estevão e deseja destruir a Igreja (cf. Atos 8: 3); mas depois se tornará o instrumento escolhido por Deus para proclamar o Evangelho às nações (ver Atos 9:15; 22.21; 26.17).

Com a autorização do sumo sacerdote, Saulo persegue os cristãos e os prende. Vocês, que vieram de algumas populações que foram perseguidas por ditaduras, vocês entendem bem o que significa caçar pessoas e prendê-las. Saulo fazia isso. E fazia isso pensando em servir a Lei do Senhor. Lucas diz que Saulo “respirava” “ameaças e massacres contra os discípulos do Senhor” (Atos 9: 1): nele há um sopro que cheira à morte, não à vida. O jovem Saulo é retratado como intransigente, isto é, alguém que mostra intolerância para com aqueles que pensam diferente dele, absolutiza sua identidade política ou religiosa e reduz o outro a potencial inimigo a ser combatido. Um ideólogo. Em Saulo, a religião se transformou em ideologia: ideologia religiosa, ideologia social, ideologia política. Somente depois de ter sido transformado por Cristo, ele ensinará que a verdadeira batalha “não é contra carne e sangue, mas contra […] os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal” (Ef 6:12) . Ele ensinará que não se devem combater as pessoas, mas o mal que inspira suas ações.

A condição de raiva – porque Saulo estava com raiva – e de conflito de Saulo convida todos a se perguntarem: como vivo minha vida de fé? Vou ao encontro dos outros ou de encontro aos outros? Pertenço à Igreja universal (bons e maus, todos) ou tenho uma ideologia seletiva? Amo a Deus ou amo as formulações dogmáticas? Como é minha vida religiosa? A fé em Deus que professo me torna amigável ou hostil para com aqueles que são diferentes de mim? 

Amo a Deus ou amo as formulações dogmáticas? Como é minha vida religiosa? A fé em Deus que professo me torna amigável ou hostil para com aqueles que são diferentes de mim? – Papa Francisco Tweet

Lucas narra que, enquanto Saulo está empenhado em extirpar a comunidade cristã, o Senhor está em seu caminho para tocar seu coração e convertê-lo para si. É o método do Senhor: toca o coração. O Ressuscitado toma a iniciativa e se manifesta a Saulo no caminho de Damasco, um evento narrado três vezes no Livro de Atos (ver Atos 9.319; 22.3-21; 26,4-23). Por meio do binômio “luz” e “voz”, típico das teofanias, o Ressuscitado aparece a Saulo e pede que preste conta de sua fúria fratricida: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9,4).

Aqui o Ressuscitado manifesta o seu ser um com os que nele creem: atingir um membro da Igreja é atingir o próprio Cristo! Mesmo aqueles que são ideólogos porque querem a “pureza” – entre aspas – da Igreja, atingem Cristo. A voz de Jesus diz a Saulo: “Levante-se e entre na cidade; alguém lhe dirá o que você deve fazer” (Atos 9: 6). Uma vez em pé, porém, Saulo não enxerga mais nada, ele ficou cego e, de homem forte, autoritário e independente, ele se torna fraco, carente e dependente dos outros, porque não enxerga. A luz de Cristo o ofuscou e cegou: “Assim, parece também exteriormente aquela que era a sua realidade interior, sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo” (Bento XVI, audiência geral, 3 de setembro de 2008).

Desse “corpo a corpo” entre Saulo e o Ressuscitado inicia uma transformação que mostra a “páscoa pessoal” de Saulo, sua passagem da morte para a vida: o que antes era a glória se torna “escória” a ser descartado para adquirir o verdadeiro ganho que é Cristo e a vida nele (cf. Filipenses 3: 7-8). Paulo recebe o Batismo. Assim, o Batismo marca para Saulo, como para cada um de nós, o começo de uma nova vida, e é acompanhado por um novo olhar sobre Deus, sobre si mesmo e sobre os outros, que de inimigos se tornam irmãos em Cristo. Pedimos ao Pai que nos permita experimentar, como Saulo, o impacto com seu amor, que por si só pode transformar um coração de pedra em um coração de carne (cf. Ezequiel 11,15), capaz de acolher em si “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fp 2,5).

Fonte

WillianPereira
CristandadeTeologia

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