Badiou: Sobre a situação epidêmica

By WillianPereira No comments

Devemos tirar proveito deste interlúdio epidêmico e até do isolamento – inteiramente necessário – para trabalhar em novas figuras da política, no projeto de novos locais da política, e no progresso transnacional de um terceiro estágio do comunismo após o brilhante momento de sua invenção e o (interessante, mas no limite derrotado) estágio de sua experimentação estatista.

Publicado em 08/04/2020 // 1 comentário

Por Alain Badiou.

* Publicado originalmente em francês no Quartier Général.
A tradução, feita a partir da versão em inglês publicada no 
Blog da Verso, é de Daniel Alves Teixeira, para o Lavra Palavra.

Desde o início, pensei que a situação atual, caracterizada por uma pandemia viral, não era particularmente excepcional. Desde a pandemia (viral) da AIDS e passando pela gripe aviária, o vírus Ebola e o vírus SARS 1 – sem mencionar várias gripes, o aparecimento de cepas de tuberculose que os antibióticos não podem mais curar, ou mesmo o retorno de sarampo – nós sabemos que o mercado mundial, combinado com a existência de vastas zonas submedicadas e a falta de disciplina global em relação às vacinas necessárias, produz inevitavelmente epidemias graves e devastadoras (no caso da AIDS, vários milhões de mortes). Além do fato de que a atual situação de pandemia está tendo um enorme impacto no antes confortável chamado mundo ocidental – um fato em si mesmo desprovido de qualquer significado novo, provocando antes lamentos duvidosos e revoltas idiotas – não vi porque, além das medidas de proteção óbvias e do tempo que o vírus levaria para desaparecer na ausência de novos alvos, era necessário subir no cavalo alto.

Além disso, o verdadeiro nome da epidemia em andamento deve sugerir que, em certo sentido, estamos lidando com um “nada de novo sob o sol contemporâneo”. Esse nome verdadeiro é SARS 2, que é ‘Síndrome Respiratória Aguda Grave 2’, um nome que sinaliza a “segunda vez” dessa identificação, após a epidemia de SARS 1, que se espalhou pelo mundo na primavera de 2003. Na época, ela foi chamada “a primeira doença desconhecida do século XXI”. É claro então que a epidemia atual não é de forma alguma o surgimento de algo radicalmente novo ou sem precedentes. É a segunda deste tipo neste século e pode ser situada como a primeira descendente. Tanto é assim que a única crítica séria que hoje pode ser dirigida às autoridades em questão de previsão é não ter financiado, após a SARS 1, a pesquisa que teria disponibilizado ao mundo da medicina instrumentos genuínos de ação contra a SARS 2.

Portanto, não achei que houvesse algo a ser feito além de tentar, como todo mundo, me isolar em casa, e nada a ser dito além de incentivar todos os demais a fazer o mesmo. A adesão a uma disciplina rigorosa nesse ponto é ainda mais necessária pois fornece suporte e proteção fundamental para todos aqueles que estão mais expostos: toda a equipe médica, é claro, que está diretamente na frente e que deve poder confiar em uma disciplina firme, inclusive por parte dos infectados; mas também todos os mais frágeis, como os idosos, especialmente aqueles em casas de repouso; assim como todos aqueles que precisam trabalhar e correr o risco de contágio. A disciplina daqueles que podem obedecer ao imperativo “ficar em casa” também deve encontrar e propor meios para aqueles que quase não têm ‘casa’ ou mesmo coisa alguma, para que possam encontrar um abrigo seguro. Pode-se imaginar, neste caso, uma requisição geral dos hotéis.

É verdade que esses deveres são cada vez mais urgentes, mas, pelo menos no exame inicial, eles não exigem grandes esforços analíticos ou a constituição de uma nova maneira de pensar.

Mas estou lendo e ouvindo tantas coisas, inclusive em meus círculos imediatos, que me desconcertam tanto pela confusão que elas manifestam como por sua total inadequação à situação – em última análise simples – em que nos encontramos.

Essas declarações peremptórias, apelos patéticos e acusações enfáticas assumem formas diferentes, mas todos compartilham um curioso desprezo pela formidável simplicidade e ausência de novidade da atual situação epidêmica. Alguns são desnecessariamente servis diante dos poderes existentes, que na verdade estão simplesmente fazendo o que são obrigados pela natureza do fenômeno. Outros invocam o planeta e sua mística, o que não ajuda em nada. Alguns colocam toda a culpa no infeliz Macron, que simplesmente está fazendo, e não pior do que outro, seu trabalho como chefe de Estado em tempos de guerra ou epidemia. Outros fazem tom e choram por um evento fundador de uma revolução sem precedentes, cuja relação com o extermínio de um vírus permanece opaca – algo pelo qual nossos ‘revolucionários’ não estão propondo nenhum novo meio. Alguns afundam no pessimismo apocalíptico. Outros estão frustrados porque o “eu primeiro”, a regra de ouro da ideologia contemporânea, neste caso é desprovida de interesse, não fornece socorro e pode até parecer cúmplice de um prolongamento indefinido do mal.

Parece que o desafio da epidemia está em toda parte dissipando a atividade intrínseca da Razão, obrigando os sujeitos a voltar a esses tristes efeitos – misticismo, fabulação, oração, profecia e maldição – que eram comuns na Idade Média quando a praga varria a terra.

Como resultado, me sinto um pouco compelido a reunir algumas ideias simples. Eu as chamaria alegremente de cartesianas.

Comecemos então definindo o problema, que em outros lugares foi tão mal definido e portanto tão mal tratado.

Uma epidemia é complexa pelo fato de ser sempre um ponto de articulação entre determinações naturais e sociais. Sua análise completa é transversal: é preciso apreender os pontos nos quais as duas determinações se cruzam e extrair as consequências.

Por exemplo, é provável que o ponto de apoio inicial da atual epidemia seja encontrado nos mercados da província de Wuhan. Os mercados chineses são conhecidos por sua sujeira perigosa e por seu gosto irreprimível pela venda ao ar livre de todos os tipos de animais vivos, empilhados uns sobre os outros. Daí o fato de que, em determinado momento, o vírus se encontrou presente, em uma forma animal em si mesma herdada dos morcegos, em um ambiente popular muito denso e em condições de higiene rudimentar.

A trajetória natural do vírus de uma espécie para outra transita então para a espécie humana. Como exatamente? Ainda não sabemos, e apenas estudos científicos nos dirão. Vamos, de passagem, criticar todos aqueles que circulam fábulas tipicamente racistas on-line, respaldadas por imagens falsificadas, segundo as quais tudo decorre do fato de os chineses comerem morcegos quando ainda estão quase vivos …

Esse trânsito local entre espécies animais que finalmente chega aos seres humanos é o ponto de origem de toda a questão. Depois disso, simplesmente opera um dado fundamental do mundo contemporâneo: a ascensão do Capitalismo de Estado Chinês à posição imperial, ou seja, uma presença intensa e universal no mercado mundial. De onde inúmeras redes de difusão, evidentemente antes que o governo chinês fosse capaz de isolar completamente o ponto de origem, qual seja, uma província inteira com 40 milhões de habitantes – algo que finalmente conseguiu fazer, mas tarde demais para impedir a epidemia de se espalhar – e os aviões e os navios – da existência global.

Considere um detalhe revelador do que chamo de dupla articulação de uma epidemia: hoje, a SARS 2 foi sufocada em Wuhan, mas há muitos casos em Xangai, principalmente devido a pessoas, geralmente chinesas, procedentes do exterior. A China é, portanto, um local no qual se pode observar o elo – primeiro por uma razão arcaica, depois moderna – entre uma interseção sociedade-natureza em mercados mal conservados que seguiram costumes mais antigos, por um lado, e uma difusão planetária deste ponto de origem sustentado pelo mercado mundial capitalista e sua dependência de mobilidade rápida e incessante, por outro.

Depois disso, entramos no estágio em que os estados tentam localmente reprimir essa difusão. Observemos de passagem que essa determinação permanece fundamentalmente local, enquanto a epidemia é antes transversal. Apesar da existência de algumas autoridades transnacionais, é claro que são os estados burgueses locais que estão na linha de frente.

Tocamos aqui em uma grande contradição do mundo contemporâneo. A economia, incluindo o processo de produção em massa de objetos manufaturados, está sob a égide do mercado mundial – sabemos que a simples montagem de um telefone celular mobiliza trabalho e recursos, inclusive minerais, em pelo menos sete estados diferentes. E, no entanto, os poderes políticos permanecem essencialmente de tipo nacional. E a rivalidade entre imperialismos, antigos (Europa e EUA) e novos (China, Japão…), exclui qualquer processo que conduza a um estado mundial capitalista. A epidemia também é um momento em que a contradição entre economia e política se torna flagrante. Mesmo os países europeus não estão conseguindo prontamente ajustar suas políticas diante do vírus.

Preso a essa contradição, os estados nacionais tentam enfrentar a situação epidêmica, respeitando o máximo possível os mecanismos do Capital, embora a natureza do risco os obrigue a modificar o estilo e as ações do poder.

Sabemos há muito tempo que, no caso de uma guerra entre países, o Estado deve impor, não apenas às massas populares, como é de se esperar, mas à própria burguesia, restrições consideráveis, tudo para salvar o capitalismo local. Algumas indústrias são quase nacionalizadas em prol de uma produção desenfreada de armamentos que não gera imediatamente nenhuma mais-valia monetária. Muitos burgueses são mobilizados como oficiais e expostos à morte. Os cientistas trabalham noite e dia para inventar novas armas. Inúmeros intelectuais e artistas são compelidos a fornecer propaganda nacional, etc.

Diante de uma epidemia, esse tipo de reflexo estatista é inevitável. É por isso que, ao contrário do que alguns dizem, as declarações de Macron ou do primeiro-ministro Edouard Philippe sobre o retorno do estado de “bem-estar”, de gastos para apoiar as pessoas fora do trabalho ou para ajudar os trabalhadores independentes cujas lojas foram fechadas, exigindo 100 ou 200 bilhões dos cofres do estado e até o anúncio de ‘nacionalizações’ – nada disso é surpreendente ou paradoxal. Segue-se que a metáfora de Macron, ‘estamos em guerra’, é correta: em guerra ou epidemia, o estado é compelido, às vezes ultrapassando a curso natural de sua natureza de classe, a adotar práticas mais autoritárias e mais geralmente direcionadas, para evitar uma catástrofe estratégica.

Essa é uma consequência inteiramente lógica da situação, cujo objetivo é sufocar a epidemia – para vencer a guerra, emprestando mais uma vez a metáfora de Macron – com a maior certeza possível, mantendo-se dentro da ordem social estabelecida. Isso não é motivo de riso, é uma necessidade imposta pela difusão de um processo letal que cruza a natureza (daí o papel preeminente dos cientistas no assunto) e a ordem social (de onde a intervenção autoritária, e não poderia ser de outra forma, do Estado).

É inevitável que algumas lacunas maciças apareçam no meio desse esforço. Considere a falta de máscaras protetoras ou o despreparo em termos da duração do isolamento hospitalar. Mas quem pode realmente se gabar de ter “previsto” esse tipo de coisa? Sob certos aspectos, o estado não impediu a situação atual, é verdade. Podemos até dizer que, ao enfraquecer, década após década, o sistema nacional de saúde, junto com todos os setores do estado que atendem ao interesse geral, agiu como se nada parecido com uma pandemia devastadora pudesse afetar nosso país. Nesta medida, o estado é muito culpado, não apenas em seu veste de Macron, mas no de todos os que vieram antes dele pelo menos nos últimos trinta anos.

No entanto, é correto observar aqui que ninguém havia previsto, ou mesmo imaginado, o surgimento de uma pandemia desse tipo na França, exceto talvez por alguns cientistas isolados. Muitos provavelmente pensaram que esse tipo de coisa era para a África escura ou para a China totalitária, mas não para a Europa democrática. E certamente não são os esquerdistas – ou gilets jaunes ou mesmo os sindicalistas – que gozam de um direito particular de defender esse ponto e de continuar a fazer barulho sobre Macron, seu alvo irrisório nos últimos tempos. Eles também não tinham absolutamente previsto isso. Pelo contrário, com a epidemia já a caminho vindo da China, eles multiplicaram, até muito recentemente, assembleias descontroladas e manifestações barulhentas, o que deveriam desqualificá-los hoje, quem quer que sejam, de condenar em voz alta os atrasos dos poderes existentes em tomar todas as medidas necessárias contra o que está acontecendo. Verdade seja dita, nenhuma força política na França realmente tomou essa medida antes do estado macroniano.

Do lado desse Estado, a situação é do tipo em que o Estado burguês deve explicitamente, publicamente, fazer prevalecer interesses que, em certo sentido, são mais gerais do que os da burguesia, enquanto preserva estrategicamente, no futuro, a primazia dos interesses de classe dos quais esse estado representa a forma geral. Em outras palavras, a conjuntura obriga o Estado a administrar a situação, integrando o interesse da classe cujo autorização representativa ela possui com os interesses mais gerais, devido à existência interna de um ‘inimigo’ que é ele próprio geral – em tempos de guerra este pode ser um invasor estrangeiro, enquanto na situação atual é o vírus SARS.

Esse tipo de situação (guerra mundial ou epidemia mundial) é especialmente “neutra” no nível político. As guerras do passado apenas desencadearam revoluções em dois casos, que podem ser denominados “outliers” em relação às potências imperiais da época: Rússia e China. No caso russo, isso ocorreu porque o poder czarista era, em todos os sentidos, e foi por muito tempo, retrógrado, inclusive como um poder potencialmente adaptado ao nascimento de um capitalismo genuíno naquele imenso país. E contra ela existia, na forma dos bolcheviques, uma vanguarda política moderna, fortemente estruturada por líderes notáveis. No caso chinês, a guerra revolucionária interna precedeu a guerra mundial, e o Partido Comunista Chinês já estava, em 1940, à frente de um exército popular que havia sido experimentado e testado. Por outro lado, em nenhum poder ocidental a guerra desencadeou uma revolução vitoriosa. Mesmo no país derrotado em 1918, na Alemanha, a insurreição espartaquista foi rapidamente esmagada.

A lição a ser tirada disso é clara: a epidemia em andamento não terá, como epidemia, nenhuma consequência política dignas de nota em um país como a França. Mesmo supondo que nossa burguesia – à luz dos slogans incômodos, frágeis e difusos – acredite que chegou o momento de livrar-se de Macron, isso de modo algum representará qualquer mudança digna de nota. Os candidatos “politicamente corretos” já estão esperando nos bastidores, assim como os defensores da forma mais mofada de um “nacionalismo” tão obsoleto quanto repugnante.

Quanto aos que desejam uma mudança real nas condições políticas deste país, devemos tirar proveito desse interlúdio epidêmico e até do isolamento – inteiramente necessário – para trabalhar em novas figuras da política, no projeto de novos locais da política, e no progresso transnacional de um terceiro estágio do comunismo após o brilhante momento de sua invenção e o (interessante, mas no limite derrotado) estágio de sua experimentação estatista.

Também precisaremos passar por uma crítica rigorosa de todas as perspectivas segundo as quais fenômenos como epidemias podem funcionar sozinhos na direção de algo politicamente inovador. Além da transmissão geral de dados científicos sobre a epidemia, uma carga política só será carregada por novas afirmações e convicções relativas a hospitais e saúde pública, escolas e educação igualitária, atendimento a idosos e outras questões desse tipo. Somente estes podem talvez ser articulados com um balanço das perigosas fraquezas sobre as quais a situação atual lançou luz.

De passagem, é preciso mostrar publicamente e sem medo que as chamadas ‘mídias sociais’ demonstraram mais uma vez que são acima de tudo – além de seu papel em engordar os bolsos dos bilionários – um lugar para a propagação da paralisia mental dos fanfarrões, rumores descontrolados, a descoberta de ‘novidades’ antediluvianas, ou mesmo obscurantismo fascista.

Não vamos dar credibilidade, mesmo e especialmente em nosso isolamento, exceto às verdades controláveis pela ciência e às perspectivas fundamentadas de uma nova política, de suas experiências localizadas e de seus objetivos estratégicos.

Três dicas de leitura da Boitempo, para aprofundar a reflexão

A hipótese comunista, de Alain Badiou

São Paulo: a fundação do universalismo, de Alain Badiou

Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek

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Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII e, atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Sua trajetória está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor de matemática – prefeito de Toulouse entre 1944 e 1958 – que se destacou na Resistência Francesa, Badiou participou dos movimentos de 1968, foi membro-fundador do Parti Socialiste Unifié (PSU) e um dos dirigentes da L’Union des Communistes de France Marxiste-Léniniste (UCF-ML), grupo maoista francês. Desde o fim da década de 1980 integra a Organisation Politique. Além de obras filosóficas, escreveu ensaios políticos, romances e atua como dramaturgo, tendo trabalhado com diretores como Antoine Vitez e Christian Schiaretti. Orientou, entre outros, os filósofos Slavoj Žižek e Vladimir Safatle. Pela Boitempo, publicou A hipótese comunista (2012) e São Paulo: a fundação do universalismo (2009).

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