Aquele vírus entre Darwin e Marx

By WillianPereira No comments

Darwin e Marx são dois personagens que o Covid nos fez impiedosamente redescobrir. Seleção natural e condenação social dos pobres foram o fundamento de uma concepção do homem baseada na luta individual pela própria afirmação”, escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por em La Stampa, 07-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A violência da epidemia está lentamente perdendo sua força mortífera na Itália. Sobrevivemos com dificuldade e sabemos bem que o trauma não se esgotou, não está às nossas costas, mas ainda estamos dramaticamente no meio dele. Hoje, dois personagem mais do que outros nos ajudam a decifrá-lo ainda mais. São Darwin e Marx. Por que Darwin? Essa epidemia atingiu os mais frágeis e mais vulneráveis: pessoas já enfraquecidas por outras doenças, mas acima de tudo, nossos idosos. O vírus parece ter cinicamente aplicado a norma darwiniana de seleção natural da espécie.

Suprimiu as vidas menos adequadas para resistir, as mais indefesas, as vidas menos dotadas de anticorpos. Uma geração inteira, como sabemos, foi dizimada. Mas não foi apenas o vírus a ser cínico, mas, muito mais, o raciocínio que muitos implicitamente, consciente ou inconscientemente, compartilharam: se alguém entre nós deve morrer melhor que sejam eles, os idosos, aqueles que, afinal, já viveram a sua vida. Melhor, portanto, eles do que nós. Também acontece quando a experimentação científica produz um novo medicamento, por exemplo para doenças oncológicas: são privilegiados os mais jovens, os indivíduos com maior expectativa de vida. E como culpá-los? No entanto, deveríamos sempre lembrar que não existe morte humana natural, que a morte de um ser humano é sempre, de certa forma, terrivelmente prematura. Durante a fase mais difícil da epidemia, alguém evocou um espectro insuportável: e se, em vez de nossos idosos, esse vírus tivesse mostrado escolher suas vítimas privilegiadas entre os mais jovens, os nossos filhos? Teria sido tudo igual? Teríamos reagido da mesma maneira?

O segundo personagem que a epidemia redescobriu é Marx. Por que Marx? Muitos interpretaram o Covid como um vírus democrático, indiferente às desigualdades sociais e à riqueza. Um vírus, como a justiça, que teria agido com os olhos vendados, sem discriminar suas vítimas. Na realidade, o Covid mostrou uma verdade subjacente, incontestável, do raciocínio marxista: no sistema capitalista, os seres humanos são diferentes e têm direitos diferentes com base em sua renda.

Infelizmente, o recente relatório do Istat confirmou a objetividade impiedosa dessa tese: não apenas a perturbação econômica desencadeada pelo vírus espalhou a pobreza, mas a própria doença fez mais vítimas entre as pessoas mais humildes, pobres e excluídas. Uma demonstração clara de que o vírus não foi de forma alguma democrático, mas enfatizou as condições de desigualdade social. É óbvio que o confinamento a que fomos forçados não foi o mesmo para todos. Foi diferente passar a quarentena em condições de privilégio e de relativa serenidade pelo futuro em vez que em condições de pobreza e preocupação angustiada pelo próprio futuro.

Até mesmo o repetido refrão de que a crise em si é uma ocasião de renovação, à luz dessas considerações, só pode revelar-se uma péssima retórica. Também sobre isso Marx expressou verdades dificilmente refutáveis: para aqueles que vivem com água no pescoço, uma situação de crise nunca é uma ocasião de renovação, mas uma complicação trágica que pode levar ao afogamento.

Darwin e Marx são dois personagens que o Covid nos fez impiedosamente redescobrir. Seleção natural e condenação social dos pobres foram o fundamento de uma concepção do homem baseada na luta individual pela própria afirmação.

Por um lado, a ferocidade do vírus revelou a verdade escabrosamente arcaica, de certa forma insuperável, dessa dupla tese sobre o homem – os mais fortes sobrevivem; os pobres morrem e adoecem mais que os ricos – por outro lado, revelou toda a impostura que a habita: o descuido pelos outros, o cancelamento da dimensão da solidariedade, a afirmação do sucesso individual como único critério para a realização pessoal demonstraram seu curto fôlego: a salvação – ensina-nos o austero e sombrio magistério do Covid – só pode ser coletiva. Por esse motivo, estar próximo dos mais fracos, não os deixar cair, é a única condição para sairmos juntos do túnel do trauma.

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