OS USOS POLÍTICOS DO ATEÍSMO: O CAPITALISMO É O PREÇO DA PAZ

O ATEÍSMO É A MELHOR COISA, EXCETO NOS CASOS EM QUE DEIXA DE SER

O mistério dos ateus que não deixam de acreditar em coisas incrivelmente convenientes

Ateus e desconversos me interessam mais do que crentes e religiosos, porque via de regra submeteram-se a um autoexame mais inclemente e no processo abandonaram um bom número de ilusões a respeito de si mesmos e dos outros.

Para o teólogo Paul Tillich, o marxismo e a psicanálise são grandes e temíveis em que desmascaram níveis ocultos da realidade que antes de serem articulados determinavam o curso das gentes sem que os tivéssemos de olhar de frente. O homem natural tem medo (em alguns casos fundamentado) de que enxergar a realidade como ela é possa destruí-lo, por isso tende a rejeitar com paixão tanto as revelações do marxismo quanto as da psicanálise.

Preferimos não ver desmascarado nenhum aspecto oculto da realidade, porque não é possível voltar a ver o mundo como o víamos antes. Não é possível recolocar a máscara em Batman e esquecer que ele é Bruce Wayne, e essa inexorabilidade do conhecimento é tão maravilhosa quanto terrível.

O ateísmo tem a virtude de celebrar essas e outras modalidades de desilusão.

Não é por acaso – é, digamos, por design inteligente, – que muitas das pessoas mais desinteressadamente gentis, humanas e generosas que já me abraçaram estão entre as que não acreditam em Deus ou deixaram de acreditar nele 1. A desilusão talvez seja o único caminho genuíno ou possível para a gentileza 2; fiz uma tatuagem mental para desconfiar de quem procura demonstrar a segunda sem dar indícios da primeira.

Os caras que mais admiro (de Sócrates a Oliver Sacks) são os que têm sonhos grandes e enorme paixão pela humanidade mas abandonaram suas ilusões a respeito dela – e a respeito de si mesmos. Sendo um estado de depuração, a desilusão é um estado de graça. O sujeito iludido tende à exaltação e ao fundamentalismo; o desiludido tende à tolerância e à longanimidade. O sujeito iludido encontra facilidade para julgar e condenar; o desiludido está equipado para simpatizar e oferecer descontos. O sujeito iludido tem certezas e profissões de fé; o desiludido tem questionamentos e, na melhor das hipóteses, diante do desmascaramento da realidade (e do seu próprio) não perdeu a ternura.

Se insisto nesse ponto é porque tenho contra certas modalidades de ateísmo contemporâneo que não se mostram suficientemente desiludidas. Ateus permanecem gente humana, e a lucidez corta dos dois lados. Gente lúcida pode facilmente se convencer de que se tornou impermeável a toda ilusão e todo autoengano 3, e os ateus com maior visibilidade cultural são (precisamente como os religiosos de maior visibilidade) os que se deixaram cair nessa armadilha.

Idealmente, ateus deveriam mostrar-se mais desapaixonados, mais céticos e menos suscetíveis à ideologia do que a maioria das pessoas, mas basta ouvir os porta-vozes do Novo Ateísmo (que não representam a maioria, eu sei, mas em qual empreendimento humano os fundamentalistas são os que falam menos) para entender que não é assim.

Richard Dawkins e Sam Harris são o alvo mais fácil, porque ergueram mais alto do que os outros as suas bandeiras. Esse é o primeiro mistério doloroso, que gente supostamente impermeável à ideologia encontre ocasião de levantar bandeiras.

Dawkins e Harris são cientistas que, como ninguém encontrou espaço para ignorar, ficaram conhecidos pelo seu ativismo antiteísta. Não acreditam em Deus e rejeitam toda religião, e tomaram o passo adicional de decidir que Deus e a religião são a causa e o instrumento de praticamente todas as guerras, todas as crueldades e todas as divisões que marcaram a história da humanidade. O Deus que não existe não deve ser apenas ignorado, insistem, deve ser combatido até que seja impossível para uma noção tão evidentemente irracional desvirtuar qualquer pessoa na terra.

“Se eu pudesse com uma varinha de condão eliminar o estupro ou a religião”, disse famosamente Sam Harris, “não hesitaria em eliminar a religião”. E os seus discernimentos seguem por essa linha.

Críticos dos dois lados já observaram que o fervor de ateus ativistas como Dawkins e Harris, sua evidente ânsia em converter, reflete de modo paradoxal o fervor dos religiosos que eles combatem. Porém talvez seja injusto criticá-los nisso, visto que os métodos exaltados dos religiosos se mostraram eficazes por milênios: podem por certo ser adotados pragmaticamente por quem quer igualmente salvar o mundo.

Mais embaraçoso é ver gente que declaradamente se opõe a toda crença irracional impondo sem cessar, sobre os outros, a sua própria.

Porque demonstrar que religião e a crença em Deus já causaram muito estrago é tão fácil que mesmo eu não cesso de fazê-lo. Porém é também fácil, e até para mim, refutar a sugestão do Novo Ateísmo de que livres de Deus e da religião os homens não encontrariam espaço ideológico para a guerra, para o preconceito e para a crueldade.

Dawkins e Harris parecem de fato acreditar que a religião não só nunca fez nada para conter coisas como a hostilidade e a ganância e a má fé entre os homens, mas tratou de manter todas essas coisas irracionais possíveis num mundo que seria de outra forma muito mais justo.

Quando pressionado a reconhecer o bem que as tradições religiosas fizeram no passado, Sam Harris pede que nos perguntemos, em vista do que sabemos hoje, se precisamos da religião hoje. Essencialmente, Harris e os porta-vozes do Novo Ateísmo propõe a sua própria cepa de teologia da substituição, asseverando que o bem que a religião prometeu e executou de modo imperfeito a ciência pode levar à perfeição.

Essa é uma das manifestações do mito condutor do Novo Ateísmo: o cientificismo, a ideia de que não existe melhor guia para a humanidade do que a ciência, ou outro caminho para a verdade.

Ao longo dos séculos XIX e XX, seduzindo-nos com antibióticos e saltos à Lua, as ciências foram ampliando a sua área de influência, invadindo no processo espaços sociais até aquele momento ocupados por disciplinas como a religião, a ética, a linguística e a filosofia. Porém foi preciso Peter Atkins para articular claramente o dogma do cientificismo – a “competência universal” da ciência – em seu artigo A ciência como verdade, de 1995: “Nenhuma outra modalidade de descoberta mostrou-se tão eficaz, ou contribuiu de modo mais significativo, na realização das aspirações da humanidade.”

Dentre as graves implicações desse artigo de fé, talvez a mais grave seja a sugestão, em si mesmo obscena mas cada vez mais popular, de que somente a ciência pode falar adequadamente em nome da humanidade. Quem pode não só determinar quais sejam as aspirações da humanidade, mas efetivamente satisfazê-las? Aparentemente a ciência pode, e apenas a ciência.

Uma ideia absolutizante requer fundamentalistas e iconoclastas. Declarada a competência universal da ciência – sua infalibilidade, por assim dizer – os proponentes do cientificismo passaram a tomar por necessário eliminar toda a possível competição. Os porta-vozes do Novo Ateísmo não rejeitam apenas Deus e a religião, mas tendem a considerar as ciências humanas igualmente incompetentes ou enganosas no que diz respeito à iluminação da verdade.

Em 2011, e provavelmente atualizando Nietszche, o físico Stephen Hawking declarou que “a filosofia está morta”, porque “os filósofos deixaram de acompanhar as descobertas da ciência, em particular as da física”. Para Hawking, a ciência mostra-se capaz de responder as perguntas – coisas como “de onde viemos” e “o que estou fazendo aqui” – com que a filosofia se debateu por milênios . “Em nossa busca por conhecimento”, explica ele, “os cientistas é que se tornaram os portadores da tocha da descoberta”. Declarações similares – exaltando a primazia da ciência e criticando o caráter especulativo, retrógrado (e a suposta inutilidade) das ciências humanas e sociais – têm sido articuladas por gente de resto notável como Neil DeGrasse, Steven Pinker e Michael Shermer.

Não há área do interesse humano que o cientificismo não tenha a pretensão de esclarecer e aperfeiçoar. A questão humana por excelência, que por milênios coube à filosofia e à religião ponderar – o problema de determinar o que é certo e o que é errado – o método científico (cientificista?) se prontificou recentemente a equacionar e resolver. Em The Moral Landscape/A paisagem moral (2010) Sam Harris defende que a ciência (e aparentemente apenas a ciência) pode fornecer respostas adequadas para questões de ética e moralidade.

“Problemas morais reduzem-se na verdade a questões sobre o bem-estar de criaturas conscientes”, diz Harris. “Valores são portanto traduzíveis em fatos que podem ser compreendidos cientificamente”.

A ideia de que valores morais podem ser compreendidos cientificamente personifica a extensão das ambições totalizadoras do cientificismo. Anos antes que Peter Atkins articulasse o dogma, Bertrand Russell – o matemático, o filósofo, o ateu, o pacifista – sustentava uma modalidade (comparativamente moderada) de cientificismo. “Todo conhecimento que se pode obter”, dizia Russell, “deve ser necessariamente obtido através de métodos científicos”. Para o matemático, isso queria dizer que a moralidade estaria para sempre fora do âmbito da ciência. Julgamentos de valor não são “conhecimento que se pode obter”, precisamente porque não se pode chegar a eles através do método científico.

Sam Harris ignora essa prudência e essa perplexidade, e pede que a ciência seja para nós maior do que foi para Bertrand Russell. Eliminando a diferença entre valores e fatos, Harris exige que a ciência pode determinar o certo e o errado do mesmo modo que o ponto da ebulição da água ou a distância da Terra ao Sol 4.

The Moral Landscape é um dos exemplos mais radiantes do cientificismo contemporâneo porque reclama para o método científico o direito e a responsabilidade de colocar ordem num dos ramos do interesse humano que permaneceu até hoje (segundo os defensores do cientificismo) no campo da especulação.

Para o cientificismo, disciplinas humanas como a antropologia, a ética, a linguística e a filosofia são tão especulativos quanto qualquer religião, e com especulativo querem dizer sem fundamento e legitimamente pernicioso. Por milênios a literatura e a filosofia tatearam tentando indicar à humanidade coisas como significado e valor, mas sua utilidade nesse e em outros campos foi superada pela competência universal do método científico. Que, num mundo iluminado pela ciência, a literatura e a filosofia continuem a tentar parece aos cientificistas uma enorme ofensa, digna de zombaria e perseguição.

A ciência, no ponto de vista de gente como Dawkins e Harris, deve ser vista como o único modo justificável de se abordar a verdade, capaz portanto de apontar na experiência humana o que tem valor e tem significado. Nessa convicção da própria excepcionalidade, na convicção de que nenhuma alternativa é justificável, está embutido o método e o combatividade dos porta-vozes do Novo Ateísmo. Querem que pensemos todos de modo científico, e de modo apenas científico; todas as abordagens competidoras devem ser eliminadas como ultrapassadas e prejudiciais. “Algumas ideias são tão perigosas”, insiste Sam Harris, “que talvez seja ético matar as pessoas por acreditarem nelas” 5. E aqui Harris, que critica sem pausa os abusos históricos da religião, raciocina com a clareza de um oficial da Inquisição.

Essa intolerância por abordagens alternativas é característica do Novo Ateísmo. Quem sustenta que há campos que a ciência não tem competência para iluminar deve ser descartado como “irracional” – e, no vocabulário do cientificismo, o irracional (coisas como a religião, a filosofia e aparentemente a literatura) representa enganos e perigos a serem eliminados a todo custo (até mesmo ao custo da morte, como lembra Harris).

Para o filósofo Jonathan Sacks, o cientificismo como o descrevemos aqui é uma manifestação clara de fundamentalismo – a tendência muito humana, e muito irracional, de tentar “impor uma verdade única a um mundo plural”. E nisso é fácil identificar os pontos de contato entre Dawkins e Harris e os religiosos que eles condenam.

E é nisso que os porta-vozes do Novo Ateísmo se mostram menos céticos e desiludidos do que acreditam que são. Sam Harris crê que a ciência pode determinar cientificamente a moralidade, e para ele os crédulos somos nós.

Escrevendo sobre Harris, e sobre a nossa aparentemente inesgotável capacidade para o autoengano, diz-me a budista (e não-teísta) Barbara O’Brien:

A psicologia oferece abundante evidência de que as pessoas não são nem de perto tão racionais quanto pensam, e de que as porções geradoras de mito do nosso cérebro continuam em plena produção. Inventamos histórias a respeito de nós mesmos e do nosso papel no mundo, e processamos nossas experiências de modo a que se encaixem nessa narrativa. Criamos nossas histórias de forma tendenciosa a partir de nossas predisposições, não através da realidade objetiva, e desse modo interpretamos o mundo. E fazemos todos assim, quer sejamos religiosos ou não. Na verdade, talvez a crença mais estúpida que qualquer um possa nutrir é a de ser uma pessoa racional.

Não serei eu a dizer a ateus como Richard Dawkins e Sam Harris aquilo em que devem deixar de acreditar. O que posso fazer, nas próximas páginas, é lembrar que já existiram ateus (e talvez alguns crentes) mais céticos e com o pensamento mais livre de ilusões.

E, no processo, lembrar o quanto o pensamento do Novo Ateísmo é reacionário em todos os sentidos da palavra. Em particular, o quanto as ênfases do cientificismo e do antiteísmo são convenientes para os detentores do poder.

OS USOS POLÍTICOS DO ATEÍSMO: O CAPITALISMO É O PREÇO DA PAZ

Houve tempo em que o principal método para se justificar o uso da violência era alegando-se o direito divino dos governantes. Nos nossos dias, para substituir as obsoletas justificativas religiosas inventaram-se outras. Essas novas justificativas são tão inadequadas quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua futilidade.
Leon Tolstoi em Carta a um hindu (1908)

O ateísmo não é reacionário por natureza ou por tradição. É o contrário: pela inclemência do seu ponto de vista, os ateus estiveram por milênios entre os críticos mais lúcidos e articulados da cultura e da sociedade, denunciando onde as encontravam a ideologia, a parcialidade, os condicionamentos sociais e os sistemas de dominação.

Para falar de exemplos relativamente recentes, Bernard Shaw delineou a urgência da reforma social; Bertrand Russel foi um pacifista intransigente; Michael Foucault descreveu a dança entre conhecimento e poder, despindo-nos publicamente; Nietzsche foi Nietzsche.

Por muito tempo foi assim: religiosos tenderam a ser reacionários e vendidos ao sistema, ateus tenderam a ser radicais e revolucionários. Na esquina do terceiro milênio essa lógica deixou de prevalecer: despontou e alçou-se à popularidade a figura do ateu conservador, nada radical, com um discurso perfeitamente alinhado à manutenção do estado de coisas.

Essa reviravolta pode ser em parte explicada como uma virada no jogo do poder. O conservador está sempre inclinado a cortejar o poder e a confirmar a legitimidade das elites, e entre as classes dominantes a balança da religiosidade pendeu. Com o avanço da secularidade, o ateísmo deixou de ser um peso e passou a ser um lastro; deixou de ser um estigma e passou a ser uma credencial.

Deus perdendo o seu poder de marca, a ciência passou a representar a infalibilidade e a legitimidade, e angariou poder político na mesma medida. O homem “racional” (em particular o cientista) passou a desfrutar do status e da deferência social que em outra época couberam ao o homem “espiritual”.

Essa virada Tolstoi já intuía em 1908:

As novas justificativas [para a injustiça social] são denominadas “científicas”. Porém o termo “científico” é entendido precisamente como era entendido o termo “religioso”. O que era tido como inquestionável por ser religioso é agora tido por inquestionável por ser científico. A justificativa religiosa para a violência foi superada pela justificativa “científica” – segundo a qual, visto que a exploração do homem sobre o homem existiu em todas as épocas, conclui-se que é natural que deva continuar a existir.

Mais ou menos como o cristianismo, chegando ao poder o ateísmo abandonou a sua vocação revolucionária e passou a legitimar o estado de coisas. E a ciência, precisamente como a ideia de Deus, foi sequestrada para justificar as injustiças sociais – “o modo como as pessoas viveram através das eras”.

Nos nossos dias os exemplos mais fulgurantes dessa postura são os que estamos examinando, os porta-vozes do Novo Ateísmo.

O capitalismo é o preço da paz

Em seu livro The Better Angels of Our Nature/Os melhores anjos de nossa natureza (2011) o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker sustenta duas teses: uma, que a humanidade está vivendo a era mais pacífica da sua história; e outra, que essa ausência de conflitos deve-se “às forças pacificadoras” da democracia, do comércio e da sociedade internacional.

A primeira ideia, de que os seres humanos estão vivendo o momento menos violento da sua história, pode parecer indefensável a qualquer um que esteja olhando ao redor, mas para desbastar a nossa incredulidade Pinker recorre ao instrumento científico (isto é, ideologicamente inquestionável) por excelência: as estatísticas.

Como as profecias da tradição religiosa, no discurso cientificista as estatísticas aliam as vantagens da infalibilidade e da maleabilidade. Ninguém seria tolo de duvidar de uma estatística (ou de uma profecia), mas se a realidade andar em outra direção você sempre pode alegar que a estatística (ou a profecia) foi mal interpretada.

O estatístico Nassim Nicholas Taleb é um que está convencido de que Steven Pinker interpretou mal as suas planilhas e os seus búzios. Para Taleb, especialista em encontrar desvios em análise de probabilidades, o otimismo de Pinker e de outros cientificistas em cantar o declínio dos conflitos armados não passa de uma perigosa “ilusão estatística” 1.

Porém, se é arriscado iludir-se com a ideia de que a violência no planeta está diminuindo (quando na verdade não está), mais perigoso é atribuir essa inexistente paz universal às virtudes da democracia, do comércio e da aldeia global – ou, para falar claramente, às virtudes do capitalismo de livre mercado.

Colocando as coisas desse modo Pinker amarra um discurso a uma ideologia, no mau sentido das duas palavras. Sua efetiva mensagem é “o capitalismo de livre mercado não deve ser em circunstância alguma questionado, porque é apenas ele que está garantindo a paz no que seria de outro modo um barril de pólvora”.

Ou, para dizer como disse Zack Beauchamp, que me apontou para essa discussão: “Enquanto continuarmos a manter as tendências do mundo em que vivemos, incluindo o crescente comércio internacional […] poderemos continuar a fazer deste mundo um lugar melhor.”

Ninguém me venha – está implícito nesse discurso – falar em diminuir a desigualdade, em conter o des-envolvimento, em fomentar a justiça social, em eliminar os nacionalismos, em priorizar relações humanas em detrimento do lucro, em humanizar e tornar locais as relações de produção, em propor estratégias de decrescimento, em questionar o capitalismo, em conter o aquecimento global, em preservar modos de fazer, diversidades e ecossistemas. O que a “ciência” está dizendo é que devemos, para o bem de todos, evitar qualquer intervenção desse tipo – sendo que na crua realidade das gentes são medidas dessa natureza que poderiam trazer algum alívio para as tensões que promovem os conflitos do mundo.

A tentativa de Pinker de impor uma credencial científica sobre o capital pouco difere do otimismo bairrista de Francis Fukuyama (hoje tido como sem fundamento até mesmo por ele), que em O fim da História (1992) declarou que o capitalismo havia criado o melhor dos mundos possíveis. As futuras gerações de seres humanos podiam até tentar, mas seria inútil procurar uma solução superior ao livre mercado para a convivência e a concórdia entre as gentes.

Sugerir que na promoção da justiça o capitalismo não tem nenhuma alternativa legítima é recurso tão ideológico – tão reducionista e totalizante – quanto afirmar o direito divino dos reis. O império pode parecer injusto pra você, caro trabalhador, mas sou sacerdote cientista: acredite quando digo que ele é a melhor coisa que já lhe aconteceu, e a mais justa.

Quando se levanta um sujeito como Thomas Piketty, que com uma montanha de erudição demonstra que em vez da prometida justiça o capitalismo promove a desigualdade, basta colocar sobre ele um rótulo de “de esquerda”. Esse mero gesto vai fazer com que o seu pensamento pareça tendencioso e pouco científico.

Resulta que a mensagem “científica” de Steven Pinker é tão reacionária e conveniente para os detentores do poder quanto foi no passado a mensagem religiosa. Ela abertamente afirma que enquanto as coisas permanecerem como estão – enquanto ninguém ousar questionar os privilégios e mecanismos vigentes, enquanto ninguém denunciar e minar os sistemas de dominação, enquanto ninguém revolucionar o estado de coisas – vai continuar dando tudo certo.

Para dar a última palavra a Tolstoi:

São essas as justificativas científicas para o princípio da exploração social. Como justificativas são não apenas fracas mas totalmente inválidas – porém são de tal modo necessárias para os que ocupam posições de poder que eles acreditam nelas tão cegamente quanto acreditavam na imaculada concepção, e as propagam com a mesma convicção.

E o grosso da humanidade, desgraçadamente subjugado pela labuta diária, fica de tal modo fascinado pela pompa com que são apresentadas essas “verdades científicas”, que sob essa nova influência acredita nessas imbecilidades científicas como se fossem verdade sagrada – da mesma fora que aceitava anteriormente as justificativas pseudo-religiosas. E continuam a submeter-se a detentores do poder que tem coração tão duro quanto os anteriores, mas que se diferem em alguma coisa é em serem mais numerosos.

Existindo fora e acima da narrativa oficial, Deus encontrava prazer em contestar as alegações de justiça e de suficiência das soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens

Parte essencial da imagem que o ocidente faz de si mesmo é que nos consideramos desde sempre mais lúcidos e esclarecidos do que o resto do mundo.

Por quase dois milênios o orgulho ocidental esteve fundamentado no fato de sermos os legítimos bastiões da fé num mundo de resto cheio de incrédulos e pagãos. Como não há narrativa sem paradoxo, hoje em dia nos orgulhamos do contrário: de sermos aqueles que abandonaram as ilusões da religião num mundo de resto cheio de crédulos e fanáticos.

Os abusos do Estado Islâmico servem, em particular, como lembrete do quanto devemos nos congratular e dar tapinhas de aprovação nas costas uns dos outros por termos abandonado as armadilhas do obscurantismo. Veja o tipo de coisa em que acreditam esses caras, dizemos uns aos outros. Lamentável que sejam tão atrasados e não tenham abandonado como nós as ilusões da religião. O mundo não vai ser um lugar seguro enquanto houver gente dando crédito a esse tipo de crença sem fundamento.

Não há Deus além do mercado

Um dos problemas com essa convicção de superioridade é que ela também se baseia numa fé sem fundamento. E pode haver ilusão maior do que acreditar-se não iludido?

O século 20 entrou para a infâmia como o século das grandes e tremendas ideologias. Por razões que perdemos quase a capacidade de entender, as pessoas daquele continente perdido se permitiram acreditar em coisas como o fascismo, o nazismo, o stalinismo e o nacionalismo – grandes lorotas ideológicas que causaram toda sorte de injustiça, opressão e morte, e proveram o combustível para um circular rosário de guerras.

Entre as décadas de 1970 e 1990 solidificou-se a convicção de que as barbaridades do século 20 haviam servido para vacinar a humanidade ocidental contra o vírus de todas as ideologias. Nunca mais cairíamos em armadilhas da estirpe do nazismo e do fascismo; nunca mais nos permitiríamos a deliberada cegueira de seguir inferno adentro homens de vendas como Hitler, Mussolini ou Stalin. Nenhum líder carismático e nenhum elixir ideológico bastaria para nos seduzir ao fanatismo e nos desviar do cinismo e da lucidez que havíamos adquirido.

Quem nos convenceu que estávamos vacinados contra todas as ideologias foi, naturalmente, uma nova ideologia, a do capitalismo em sua estirpe neoliberal. O neoliberalismo ou fundamentalismo de mercado é uma modalidade extrema e fanática de capitalismo – tão ansiosa por converter e tão distante da moderação quanto a modalidade de islamismo adotada pelo Estado Muçulmano.

É uma ideologia como qualquer outra, porém mais insidiosa em que se recusa categoricamente a admitir que é uma ideologia – e pode haver algo mais ideológico do que afirmar-se não ideológico?

O neoliberalismo pede que creiamos, de um lado, que neste universo nada realmente existe se não se puder vender ou comprar; de outro, pede que acreditemos que quando todo recurso ao alcance do homem for transformado em produto haverá justiça para todos. Na verdade, o dogma não apenas alega (o que já seria incorreto, leia-se Marx ou Thomas Piketty) que o livre mercado produz efetivamente a justiça; ele insiste que a mão invisível/sobrenatural do mercado produz a única forma justa de justiça que a humanidade chegará a conhecer na história das civilizações passadas, presentes e futuras.

Nenhuma ideia humana foi evangelizada mais eficazmente, nenhuma desenhou para si uma narrativa mais totalizadora. Os monoteísmos eram totalizadores mas apelavam para a fé; os impérios eram totalizadores mas apelavam para a força. O capitalismo apela para o fim literal da história, para a rejeição literal de quaisquer alternativas, para o abandono literal de todas as narrativas competidoras. É o império dos impérios, a ideologia das ideologias, o apocalipse feito produto, e seu exército é invencível porque está onde houver um consumidor. Seu pão é o consumo, seu circo o público espetáculo do consumo.

O crente no capitalismo – e quem a esta altura pode deixar de ser – tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Nenhuma agressão e nenhuma apropriação nos parecerá em qualquer caso excessiva, porque o capitalismo deitou sobre toda agressão e toda apropriação o seu sagrado selo de aprovação. Como estamos convictos de que para o capitalismo não existem alternativas, tudo torna-se aceitável: a libertação entre aspas do Iraque, a napalmização do cerrado brasileiro com pasto e soja, a conversão da Amazônia em estacionamento de hambúrgueres, a transformação da China em calabouço produtivo do mundo.

O curioso é que aprendemos a absolutamente não tolerar o fundamentalismo e as reivindicações de supremacia na esfera da religião. Qualquer tradição religiosa que se ouse afirmar a única alternativa válida ou viável nos parecerá inerentemente obscena. Porém o que não toleramos na religião toleramos, de modo duplamente contraditório, na esfera secular. Somos os primeiros a professar em atos e palavras a fé de que para o capitalismo de livre mercado – uma ideia, uma mera ideia, uma ideia infeliz sem futuro e sem fundamento – não há alternativas.

A falta que Deus faz

De um lado, é um mundo em que todos no recinto que se consideram gente grande se creem livres das ilusões da religião. Do outro, os que sentem falta de Deus o fazem pelas razões mais mesquinhas e superficiais.

É um desfecho no mínimo curioso para a tradição judaico-cristã, que fundamentou-se desde sempre numa rigorosa polêmica contra as ilusões da civilização.

As religiões da Antiguidade existiam para legitimar impérios, ferramentas de dominação e estruturas de poder. Eram ferramenta política, e ninguém se surpreendia que fossem; seus rituais e cosmologias operavam uma ideologia a serviço das elites e do estado de coisas. A exceção, a divina exceção, espreita na Bíblia da tradição judaico-cristã, que manifesta do Gênesis ao Apocalipse um profundo ceticismo diante daquilo que os homens consideram grande e seguro, valioso e definitivo.

A Bíblia antecipa Marx, Sartre e Bernard Shaw na crueza do seu pessimismo. Aquilo que os homens consideram ordenado, justificado e inabalável, explicam as vozes bíblicas, é na verdade precário, condicionado e está prestes a ruir. Aquilo que os ricos e poderosos consideram justo e admirável, diz a Bíblia, você deve tomar por certo que justo e admirável está longe de ser.

Em particular, o Deus da Bíblia provê uma supranarrativa – uma versão da história que paira acima da narrativa oficial e desafia abertamente a sua supremacia.

Existindo fora e acima das narrativas oficiais, Deus serve para (e encontra prazer em) contestar as alegações de justiça e de suficiência de todas as soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens.

É da natureza dos impérios, a Bíblia alerta continuamente, fazer uso de uma narrativa totalizadora. Três milênios antes que o seu professor de esquerda mandasse você ler Eduardo Galeano, o Deus da Bíblia já ensinava que as alegações totalizadoras dos impérios não passam de discursos.

O império é do mal, mas vai explicar que é totalmente bom. O império é ilegítimo, mas vai alegar absoluta legitimidade. O império é injusto, mas vai se afirmar o grande promotor da justiça. O império vai se declarar a melhor coisa que já aconteceu, mas o mesmo disseram todos os impérios antes dele.

O império reluz como ouro, mas tem pés de barro.

De sua posição privilegiada acima da narrativa oficial, o Deus da Bíblia faz consistentemente a coisa mais surpreendente de todas, coisa tão revolucionária nos nossos dias quanto foi há três milênios: fala contra o império em nome dos oprimidos por ele.

Aqui reside, afinal de contas, a força do Êxodo, a história libertação do povo de Israel da servidão no Egito pela intervenção de Moisés. Como todos os representantes do império (porque todos os impérios são um só), o faraó esmagava aliados e oponentes debaixo de uma narrativa totalizadora de poder e legitimação. Sendo oficial e totalizador, o discurso do império produzia em tudo de humano que tocava (até mesmo no faraó) uma opressão da qual parecia impossível escapar.

A solução divina para a sujeição universal à narrativa imperial é a supranarrativa. A supranarrativa é a esfera de operação de Deus, o único personagem da novela não encarcerado pela narrativa oficial. A mera existência de Deus cria um espaço de manobra para que as políticas do estado e o próprio estado sejam severamente criticados.

A grande novidade da história do Êxodo, portanto, não é demonstrar o poder de Deus (o que acabaria reduzindo a supranarrativa a uma nova narrativa oficial). Sua subversão está em demonstrar de um lado a contingência do poder de todos os impérios, de outro a legitimidade do anseio do oprimido por justiça neste mundo e nesta vida.

O faraó aprende, e o leitor com ele, que a supranarrativa não há como contornar. Enquanto houver na Terra quem acredite que há algo mais legítimo do que o império, inteiramente legítimo o império nunca vai ser. Em termos estritos Deus não precisa sequer existir, ou basta que Deus exista nos clamores humanos por amor, igualdade e justiça.

Uma vez articulada a supranarrativa, uma vez que Deus tenha a liberdade ou a função de zombar do império e colocar em dúvida a sua suficiência, as alegações totalizadoras da supremacia imperial vêm abaixo imediatamente. Deus faz nascer a perspectiva, a perspectiva faz nascer a esperança, a esperança faz nascer o clamor por justiça – e do clamor por justiça brotam o confronto, a revolução e a reviravolta. O arbusto não precisa de outro combustível para começar a arder. A mera articulação da supranarrativa – que alguém ouse contar a história a partir do ponto de vista de Deus – serve para desencadear o processo.

O Êxodo é exemplar, mas Bíblia adentro a supranarrativa serve para desarmar as narrativas totalizadoras de um governo atrás do outro – até mesmo dos governos de Judá e de Israel . Deus é o observador cético da operação de todos os estados, o crítico social de todas as narrativas oficiais.

O império assírio, o império babilônico, o império romano – a Bíblia trabalha para anular os discursos totalizadores de cada um desses impérios, e oferece leituras cada vez mais críticas de suas operações e de sua legitimidade.

A supranarrativa oferecida e desencadeada por Jesus é por certo a mais devastadora e radical. O Pai de Jesus paira acima e além de todas as soluções políticas concebidas pelo ser humano. Ele não reconhece a legitimidade da monarquia, da democracia, da meritocracia, até mesmo da anarquia, porque todas essas soluções esbarram no detalhe – para ele inaceitável – de não serem o governo do amor e da graça, em que os prêmios são distribuídos pelo rígido critério do critério algum. No Novo Testamento a perversidade totalizadora do império só é corrigida pela instauração sempre interina do reino de Deus, o domínio em que governam não exércitos ou discursos mas o amor, que é despoder.

Um império sem uma supranarrativa

O capitalismo neoliberal é o maior império que o ocidente já ofereceu ao planeta, e é também o primeiro a não ser temperado por uma supranarrativa. Não acreditamos mais em Deus, pelo que não concebemos nada que se poste acima do capitalismo para efetivamente zombar dele, denunciar a sua ilegitimidade e clamar por justiça aos seus oprimidos. Deixamos de crer não apenas em Deus: deixamos de acreditar que para o império vigente existam verdadeiras alternativas. O império agradece.

A coisa que mais se assemelha a uma alternativa ao capitalismo é o socialismo, mas o socialismo é uma narrativa paralela, não uma verdadeira supranarrativa.

Contra o fundamentalismo de mercado uma narrativa paralela – um discurso alternativo, por mais lúcido e bem articulado que seja – não bastará jamais, porque o capitalismo é um morto-vivo que se apropria de tudo que se coloca no seu caminho, até mesmo os seus antagonistas, e reverte em seu favor a diferença de potencial. O capitalismo na verdade se beneficia da existência do socialismo como alternativa, e faz uso dele do mesmo modo que usa toda forma de concorrência ou de crítica: de modo a se legitimar.

Não sendo um discurso, a supranarrativa divina não se prestaria a esse tipo de apropriação. Porém deixamos de acreditar em Deus, deixamos de imaginar a perspectiva divina e de sonhar com ela, deixamos de dar ouvidos à divina crítica à comédia humana. A supranarrativa não representa um perigo para o capitalismo.

Nem mesmo os que acreditam em Deus, bem entendido, sentem-se compelidos a exercer a vocação divina à subversão política.

O islamismo tem a desvantagem de conter em si mesmo uma proposta política, um modelo de estado e de organização. O islamismo é capaz de criticar ocasionalmente o capitalismo mas, ao contrário do cristianismo bíblico, não está armado – não tem espaço de manobra – para criticar toda e qualquer organização política. Tendo a sua própria narrativa para defender, não está em condições de oferecer contra o império uma supranarrativa.

Os cristãos, que poderiam fazer diferente, não representam ameaça. A maior parte acompanha os evangélicos/republicanos norte-americanos em prestar irrestrita adoração ao capitalismo. Em vez de criticarem a própria natureza e a legitimidade do sistema, gastam tempo com polêmicas rasas e condicionadas, e suas intolerâncias e melindres alimentam os demônios do fascismo e do nacionalismo.

Os católicos estão mais próximos de fundamentar na divina perspectiva uma crítica ao capitalismo; veja-se por exemplo as posturas recentes do papa Francisco. Porém o capitalismo se defende negando a legitimidade da supranarrativa oferecida pelo papa e colocando em dúvida a sinceridade da sua fé. Não é que católicos como Francisco acreditam num Deus acima do capitalismo, afirmam os neoliberais; é que Francisco, por estupidez ou por maldade, acredita nas ilusões do comunismo (pouco importa que a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém tenha sido cristã muito antes de ter sido comunista).

Desse modo o capitalismo prossegue mastigando os ossos do mundo, tendo já consumido as suas carnes, sem que qualquer supranarrativa se intervenha para oferecer perspectiva e esperança, e a partir dessas coisas a justiça.

Porque, se existisse, Deus estaria dizendo que os ricos e poderosos que você se sente tentado a invejar são na verdade canalhas e exploradores em situação precaríssima. Estaria dizendo que o capitalismo neoliberal, o sistema político-econômico que se afirma o mais justo já operado entre os homens, não passa de um império: um império maldito, ridículo, ilegítimo e perverso, que nada promove além de injustiça, desigualdade, destruição e opressão. Estaria dizendo ai dos ricos porque são demônios, e felizes dos pobres porque podem pelo menos dormir com a consciência limpa. Estaria dizendo que o reino de Deus é o domínio diametralmente oposto ao império da ganância e das explorações.

Estaria dizendo: bem-aventurados os que não consomem, porque não serão consumidos.

Curiosíssimo é que o Novo Testamento afirma, incrivelmente, quase blasfemamente, que Deus é amor. Sendo um ponto de vista, uma escolha e uma perspectiva, o amor pode sempre oferecer uma supranarrativa.

Talvez o Novo Testamento esteja certo, e Deus talvez não esteja no céu, mas no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Talvez o reino do céu seja o reino da plena graça e igualdade na terra. Se Deus é amor, como está escrito em todas as Bíblias do planeta, acreditar em Deus tem de ser, pelo menos um pouco, acreditar no amor.

Deus então pode ser, e pode sempre ter sido, o espaço de manobra que se abre no coração de quem ousa conceber solução mais elevada do que o império. Se Deus é amor, pode muito bem não ter desejado existir em outra forma.

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