Provocações Teológicas

Simul justus et peccator

Teologia

Imaginar a teologia

“Neste tempo de incerteza e vulnerabilidade, em meio a um verdadeiro conflito simbólico entre diferentes leituras dos eventos, pediremos a Christoph TheobaldElmar Salmann e Pierangelo Sequeri inspiração para uma inclinação para o bem possível até mesmo na ausência das garantias necessárias”, escreve Lucia Vantini, professora de Filosofia e Teologia no Instituto Superior de Ciências Religiosas e Estudos Teológicos de San Zeno, em Verona. Membro da comunidade filosófica Diotima, em artigo publicado por Settimana News, 03-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Pontifício Instituto João Paulo II convoca três das maiores vozes da teologia europeia: Ch. TheobaldE. Salmann e P. Sequeri discutirão o tema “Hoje e amanhã: imaginar a teologia” (5 de maio, 15h30 – transmissão em streaming, aqui). Declarada a intenção de colocar a mão em um novo paradigma do pensar e fazer teológico, já esboçado na obra dos três teólogos que acompanharam e moldaram grande parte da inteligência da fé no período pós-conciliar. No entanto, não se trata apenas de um evento isolado, mas também a entrega de um mandato para a empreitada teológica. Uma entrega que Lucia Vantini recolhe com clareza e explicita com originalidade: assumindo a tarefa e partilhando-a com os leitores de SettimanaNews, porque “é uma comunidade inteira que deve apoiar a parrésia de quem tem o dom da profecia”.

Há momentos em que a realidade e seu destino são confiados à imaginação das pessoas a tal ponto que a ousadia de sua visão pode fazer a diferença não só hoje, mas também para o amanhã. É com esse desejo de perspectivas que aguardamos o dia 5 de maio, quando três grandes teólogos falarão sobre o presente e o futuro da teologia.

Neste tempo de incerteza e vulnerabilidade, em meio a um verdadeiro conflito simbólico entre diferentes leituras dos eventos, pediremos a Christoph TheobaldElmar Salmann e Pierangelo Sequeri inspiração para uma inclinação para o bem possível até mesmo na ausência das garantias necessárias.

Habitados pelo amanhã

O famoso quadro de Magritte vem à mente, com o título particularmente significativo: Clarividência. Nesta pintura, o autor representa-se enquanto olha para um ovo e com o pincel mergulhado em preto brilhante pinta um pássaro de asas abertas, que parece quase alçar voo para além da tela. Assim se coloca em cena a força vital escondida na história, que corre o risco de ficar em silêncio por desatenção ou medo, mas também porque não há quem a conte.

“Ver com clareza” é, portanto, a arte de antecipar o bom resultado dos processos em andamento. É como na famosa história do homem de Charles, que se deparou com três trabalhadores empenhados em quebrar pedras. Quando ele perguntou o que estavam fazendo, os três – embora aparentemente imersos na mesma atividade – deram-lhe uma resposta muito diferente. O primeiro disse, zangado e nervoso, que estava empenhado num trabalho estúpido e cansativo, o segundo mencionou o cansaço, mas acrescentou que pelo menos podia ficar ao ar livre, enquanto o terceiro surpreendeu totalmente o seu interlocutor: “Estou construindo uma catedral”[1].

São palavras habitadas pelo amanhã, visões enraizadas no hoje, mas capazes de antecipações maravilhosas e que maravilham. Certas teologias são assim: mesmo quando falam das resistências do mundo, dão a impressão de estar construindo algo grande. Vale a pena conhecê-las.

Nossa faculdade imaginativa é capaz de tudo, sabemos disso. Como a história atesta, ao imaginar que podemos nos perder ou nos encontrar, cobrir de mentiras os vazios existenciais ou abrir aqueles espaços fechados a chave por medo, refugiar-se no passado da nostalgia ou apressar o futuro forçando-o a antecipações promissoras, trair a realidade ou salvá-la através de uma nova e ousada forma de atenção.

Imaginar teologia pretende ser um evento que tira dessa ambiguidade, dirigindo-se para palavras encarnadas, aquelas que provêm da vida e a ela voltam, expressando precisamente nesta circularidade o imprevisto da descontinuidade pascal.

Este é o desejo profundo que anima a teologia, com aquele logos afetivo que nossos três teólogos souberam e sabem exprimir muito bem, superando o famoso dístico de Hölderlin: “Se tens intelecto e coração, mostra um ou outro. Se os mostrar juntos, um e outro vão te condenar” [2]. Nesta perspectiva, as boas palavras da teologia não têm medo de nomear as cruzes do mundo e, aliás, sentem uma responsabilidade precisa nisso.

Ao mesmo tempo – e precisamente na medida em que se inspiram numa lógica pascal – procuram e tocam os pontos de alavancagem dos processos de libertação e de liberdade do mal, significando e fazendo circular aquela gratuidade do bem da qual muitas vezes nos alimentamos quase sem perceber.

A arte da falta

Esse poder simbólico não é dado como certo e só se encontra nas palavras que surgem de uma trama de relações hospitaleiras, bem presente nos textos de TeobaldSalmann e Sequeri. Em um tecido de malhas apertadas, com poucas cores e desgastado pelo tempo de repetição, as palavras nasceriam já gastas e se tornariam violentas. Sem essa imaginação trocada, só restaria ter pequenos sonhos de uma volta ao equilíbrio perdido, sem novidades, sem ganhos de sabedoria e sem as condições para aquela proximidade solidária que neste momento histórico se revelou essencial.

O real permanecerá fixado em sua forma mortífera e estaremos sempre distantes do sentido nascente das coisas. Como Etty Hillesum escreveu antes de morrer em Auschwitz, “se não soubermos oferecer ao nosso empobrecido mundo do pós-guerra nada além de nossos corpos salvos a todo custo, e não um novo sentido das coisas, retirado dos poços mais profundos de nossa miséria e desolação, então não será suficiente” [3].

Esse novo sentido das coisas certamente terá que ser buscado e encontrado juntos, mulheres e homens, em um confronto que não descarta as teologias femininas e feministas. Trata-se de colocar em alta voz aquela pergunta que os discípulos guardaram em silêncio, ao ver Jesus com a samaritana: “O que dizes a ela?” [4].

teologia então se descobre parcial e aprende a arte da falta, a paciência diante das respostas que não chegam, a escuta real dos sujeitos, a força para reconhecer a autoridade espiritual a aqueles que se encontram às margens da história.

O bom uso da crise

Se uma teologia autêntica sempre se gera na capacidade de receber palavras de outro lugar, é dessa porosidade que se mede a sua qualidade e a sua capacidade de não trair o mistério de um futuro que irrompeu no presente e não sabe como se explicitar.

Existe um bom uso das crises, escreve Christiane Singer [5]. Toda crise pode ser uma oportunidade para evitar o pior, se nos livrarmos do nosso imaginário de segurança: às vezes parecemos aqueles passageiros com uma passagem vencida nas mãos que a agitam ostensivamente na frente do cobrador, na esperança de que não vá olhá-la perto demais. Uma teologia muito autoconfiante, imunizada e sem pluralidade, está fadada a perder.

Certamente, essa saudável insegurança não falta de parrésia [6], um valor que emerge em contextos de disparidade, quando quem fala leva em conta as repercussões – ou mesmo a morte – de parte do poder constituído. Isto está relacionado com o que Catarina de Siena já escreveu para toda a Igreja: “já ficastes calados o suficiente. É hora de parar de ficar em silêncio. Gritem em cem mil línguas. Vejo que por causa do silêncio o mundo apodreceu” [7]. Não é a coragem do indivíduo, é toda uma comunidade que deve sustentar a parrésia de quem tem o dom da profecia.

Em um tempo como este, que nos surpreendeu e nos revelou em nossa vulnerabilidade, podemos nos deixar condicionar pelo fato de podermos ser feridos e nos afastarmos dos outros, com o álibi da contaminação; ou podemos valorizar aquela interdependência experimentada como inevitável e vital.

Para as gerações

Este não é o momento da prova, mas de escolha. Como afirma o Papa Francisco: não é o tempo do juízo de Deus, mas é o tempo do nosso juízo, é o tempo de reconhecer o que importa e o que passa, de separar o necessário do supérfluo, de fazer as contas com as patologias e os desequilíbrios sociais, as culturas do descarte, as desigualdades, as indiferenças [8].

Herdando essas teologias profundas, que assumiram a tarefa de cuidar do presente e da imaginação de amanhã, colocamo-nos na escuta também das novas gerações. Sem a preocupação de conduzi-las até onde nós estamos, oferecemos-lhes o crédito que merece a vida nascente: “as raízes devem ter fé na flor” [9].

Esta é, portanto, a forma da nossa responsabilidade, a forma pascal de uma teologia que está verdadeiramente à altura da realidade no tempo da crise. Disso está imbuída a sabedoria destes três “gigantes da teologia”, que mais uma vez se expõem como vozes de uma história que não desiste de pensar e procurar os vestígios de Deus em cada canto da terra, em cada forma da experiência humana, e certamente em cada espaço do debate público.

https://youtube.com/watch?v=Z1ErvpYl2VQ

Referências

[1] Boris Cyrulnik, Parlare d’amore sull’orlo di un abisso. Il coraggio di farsi amare Bologna: Frassinelli 2005, pp. 26-27.

[2] Friedrich Hölderlin, Le liriche, Milão: Adelphi 1993, p. 400.

[3] Etty Hillesum, Lettere 1942-1943, Adelphi, Milão 2001, p. 45.

[4] João 4,27. Cf. Elizabeth Green – Cristina Simonelli, Incontri. Memorie e prospettive della teologia femminista, San Paolo, Cinisello Balsamo (MI) 2019.

[5] Christiane Singer, Del buon uso delle crisi, Servitium, Milão 2011.

[6] Michel Foucault, Curso realizado em Berkeley em 1983, alguns meses antes de morrer.

[7] Cf. Le lettere di Santa Caterina da Siena, editadas por N. Tommaseo e P. Misciatelli, Orazio Spizio, ebook, 2019, p. 54.

[8] Papa Francisco, Perché avete paura? Non avete ancora fede?, ebook, LEV, Cidade do Vaticano 2021.

[9] Maria Zambrano, Persona e democrazia. La storia sacrificale Bruno Mondadori, Milão, 2000, p. 149.

Fonte

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