Ler Rosa Luxemburgo hoje. Artigo de Claudio Magris

“Ler e reler Rosa Luxemburgo é também uma vacina contra a atenuação da alegria de viver, da paixão, do entusiasmo. O Covid criou em muitos a sensação de que a História substancialmente acabou, que o arranjo atual, cada vez mais difundido e semelhante no mundo se tornou uma realidade global e definitiva, que nada pode se contrapor à ordem dos vencedores nas batalhas do Mercado e que não existe compaixão por todos os caídos, por todos os humilhados e ofendidos naquelas batalhas. No terceiro Natal passado naquela prisão, antecâmara da morte feroz que lhe seria infligida, Rosa Luxemburgo não conhece o desânimo, o medo, a depressão”, escreve o escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004, em artigo publicado por Corriere della Sera, 01-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Com certa idade, quem passou a vida lendo continua lendo, com a mesma paixão, mas também é levado a reler livros amados e a redescobrir, às vezes sob uma luz diferente. Não é apenas a nossa história pessoal que se projeta no espírito com que um livro é relido; também o tempo histórico em que vivemos, a nova realidade que nos rodeia modificam a nossa leitura, realçam certas páginas que se haviam se desbotado ou desbotam outras. Por exemplo, retomei, embora me lembrasse bem, a carta que Rosa Luxemburgo, em dezembro de 1917, escreve, da horrível prisão de Breslau onde está detida, para a esposa de Karl Liebknecht, líder junto com ela do movimento revolucionário Espartaquista alemão, esmagado com sangue naqueles anos em que terminava a Primeira Guerra Mundial, na Alemanha, na violência implacável de uma guerra civil, nos embates entre direita e esquerda. Rosa Luxemburgo morrerá dois anos depois junto com Liebknecht – assassinada com coronhadas pelo Corpo Franco do Exército Alemão, as formações militares-paramilitares da direita radical.

Daquela carta eu me lembrava intensamente, como todos os que a conhecem, da participação indelével na dor de todos os viventes, a força com que narra sobre aqueles búfalos que de sua cela Rosa vê chegando puxando os carros do exército, submetidos a violências brutais infligidas a eles por pura diversão, o prazer de bater e fazê-los sofrer, a infinita e exausta tristeza nos olhos do animal, seu suor manchado de sangue. Como todos os leitores daquelas páginas, fui marcado pela dor em relação a todos os seres vivos; do sofrimento do animal que, como escreveram outros grandes autores, lança uma sombra escura também sobre o Humanismo, sobre a primazia absoluta do ser humano, senhor da Criação, mas também senhor que abate e ama abater.

A leitura mais recente deteve-se sobretudo em outro aspecto da carta, na incrível capacidade de felicidade da autora mesmo em sua condição de angústia. Tudo o que ela está vivenciando e sofrendo e a consciência do que a espera não sufocam a felicidade, grandiosa palavra naquela situação; a alegria de poder ver, mesmo da sua cela, os campos, a luz das diferentes horas, as flores, a escuridão da noite “tão bela e macia como veludo”, os sabugueiros, as folhas longas e delgadas, o farfalhar do vento, musical como os Lieder que ela tanto adora. É uma experiência forte ler Rosa Luxemburgo neste tempo de Covid que parece infinito e, além de tantos desastres, criou e cria em muitos um cansaço acidioso, muitas vezes enfraquece as relações e os vínculos, seca a alegria. Alguns escritores declararam que, nos dias de lockdown, aquele morno tempo livre amornava seu desejo de escrever e embotava seu desejo de viver. É claro que houve e há reações opostas e houve e há dificuldades muito maiores, pobreza e miséria que dificultam a sobrevivência básica de muitos e, para algumas categorias de trabalhadores, dificultam muito o esforço diário.

Ler e reler Rosa Luxemburgo é também uma vacina contra a atenuação da alegria de viver, da paixão, do entusiasmo. O Covid criou em muitos a sensação de que a História substancialmente acabou, que o arranjo atual, cada vez mais difundido e semelhante no mundo se tornou uma realidade global e definitiva, que nada pode se contrapor à ordem dos vencedores nas batalhas do Mercado e que não existe compaixão por todos os caídos, por todos os humilhados e ofendidos naquelas batalhas. No terceiro Natal passado naquela prisão, antecâmara da morte feroz que lhe seria infligida, Rosa Luxemburgo não conhece o desânimo, o medo, a depressão. “Caríssima- escreve à mulher de Liebknecht – seja apesar de tudo serena e feliz … Destemidos e sorridentes, apesar de tudo … seja corajosa, minha garota … Tudo vai dar certo, nem sempre devemos temer o pior .. É meu terceiro Natal na prisão, mas não faça disso uma tragédia – meu coração pulsa com uma alegria interior inconcebível e desconhecida, como se eu estivesse caminhando em um campo florido … e, no escuro, sorrio para a vida. Feliz Natal“.

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