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Meritocracia? Uma ilusão que justifica as desigualdades

“O ponto verdadeiro é que a meritocracia se tornou a legitimação ética da desigualdade, em nome de um grande equívoco: que talento seja mérito (e não dom)”, escrevem Luigino Bruni, professor do Departamento de Jurisprudência, Economia, Política e Línguas Modernas da Universidade Lumsa, de Roma e Paolo Santori, em artigo publicado por Avvenire, 05-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O sucesso não depende apenas do mérito: também contam com a ajuda de outras pessoas, o talento natural, a possibilidade de uma educação gratuita, a sorte. A meritocracia hoje goza de uma estranha fama. Muitos políticos, empresários, expoentes da sociedade civil promovem a sociedade meritocrática como uma sociedade à medida do ser humano, a única à altura de suas necessidades de justiça social; muitos filósofos, economistas, cientistas políticos, sociólogos, por outro lado, veem a meritocracia como uma ideologia que legitima as desigualdades, uma falsa promessa de mobilidade social e igualdade de oportunidades.

Como em uma vida dupla, a meritocracia é o Dr. Jekyll no debate público e o Mister Hyde na academia – com as devidas exceções de ambos os lados. A questão então não é sobre as razões ou erros de um lado em relação ao outro, mas sobre a natureza da ambivalência inerente à meritocracia. Para tentar arrumar uma meada enrolada, a Universidade de Cardiff e o grupo de pesquisa Heirs (Happiness and Relationships in Economics) organizaram em 15 de abril um dia de estudo e reflexão online sobre o tema da meritocracia dia. The illusion of merit, a ilusão do mérito: o título escolhido para o workshop traz a consciência de que as questões essenciais relacionadas à meritocracia estão ligadas ao tema do mérito. Quatro palestrantes de renome internacional – Jo Littler (City University of London), Robert Sugden (University of East Anglia), Daniel Markovits (Yale) e Robert H. Frank (Cornell University) – e dezesseis acadêmicos e estudiosos de diferentes áreas (economia experimental, economia empírica, filosofia, teologia, sociologia, ciência política) discutiram a situação dos estudos sobre a meritocracia hoje, sobre os problemas e os desafios futuros relacionados a um tema que, tanto seus detratores quanto seus defensores, consideram central para as sociedades contemporâneas.

Decidimos reproduzir aqui algumas de suas reflexões, que são nossas reflexões: queremos fundamentar um debate público que já há muito tempo tem sido perigosamente autorreferencial. A meritocracia agrada a muitos pelas promessas inerentes ao seu ideal: valorização do empenho e do trabalho individual, luta contra privilégios, mobilidade social que, para usar as palavras de Adam Smith, corresponde ao desejo de melhorar as nossas condições (desire to better one’s condition). Seria um erro, ao criticar a meritocracia, não reconhecer a importância e legitimidade dessas promessas. Fora de partidarismos, perguntemo-nos o que elas comportam e quais são mantidas nas sociedades meritocráticas.

Primeiro, vamos tentar entender se o sucesso é sempre equivalente ao mérito. Se fosse esse o caso, a pretensão da meritocracia de separar os poucos “merecedores” dos muitos “desmerecedores” seria plenamente fundamentada. Ao longo da história, as oligarquias, os governos de poucos, sempre tentaram se apresentar como aristocracias, os governos dos melhores (poucos). A meritocracia parece justamente adequada para essa função. No entanto, quando examinamos mais profundamente os sucessos individuais na escola, nos esportes, na política, na economia, vemos que há muito mais do que o simples mérito. Existe a ajuda de outras pessoas, uma boa dose de talento natural, a possibilidade de uma educação gratuita, mas também o que Frank chama de luck, sorte ou puro acaso. Todos fatores meritocráticos que, somados aos nossos méritos, contribuem para o nosso sucesso. Em seu texto Sucess e LuckFrank nos conta como, imbuídos pela ideologia meritocrática e pela ideia de que a medida do próprio sucesso seja a soma dos próprios méritos, alguns políticos estadunidenses se opuseram a políticas redistributivas e de bem-estar. Por que ajudar os outros se eu, somente com minhas forças, cheguei ao topo?

É curioso que um raciocínio desse tipo também seja muito difundido no mundo dos negócios, como se houvesse uma ligação secreta entre meritocracia e economia de mercado. Na realidade, a tradição liberal e seus diferentes expoentes, como KnightHayek e até Rawls, sempre souberam que o mercado não é um lugar meritocrático. Sugden, herdeiro dessa tradição, explicou-nos que o mercado é antes uma escola de humildade para o ideal meritocrático, pois a recompensa das ações individuais não depende do seu valor intrínseco, mas sim do valor que os outros atribuem aos nossos esforços. Se eu me empenho a produzir coisas que ninguém quer comprar, não poderei invocar meus “méritos” para ter uma recompensa. Em um caso diferente, eu poderia produzir coisas altamente apreciadas e receber uma alta retribuição, mas depois, conforme mudam os gostos e preferências, ou outras circunstâncias socioeconômicas, as pessoas poderiam estar menos dispostas a pagar o fruto do meu trabalho: a quem apelarei então?

Quem procura meritocracia no mercado está fadado a ficar (parcialmente) desapontado. O que é certo é que, como Hayek dizia em seu Direito, Legislação e Liberdade, uma sociedade de mercado dificilmente se sustentaria sem “a ilusão do mérito” – que sairia da cama para trabalhar se não pensar que os esforços de hoje serão adequadamente recompensados amanhã? Talvez seja por isso que é muito difundido entre os “desmerecedores”, ou seja, os perdedores da competição meritocrática, aquilo que Jo Littler definiu como o déficit meritocrático, ou seja, a aceitação da equidade e da legitimidade das lógicas da meritocracia mesmo diante de provas irrefutáveis de que sucesso e mérito não são a mesma coisa. Como se tivéssemos uma necessidade inata de meritocracia, além da esfera da razoabilidade. Esse mecanismo de autoengano é tão difundido que as pessoas às vezes criam “méritos imaginários” para quem tem sucesso e, talvez mais preocupante, “deméritos imaginários” para aqueles que estão no fundo da escala social, os últimos, os descartados, os pobres.

A ideologia dos amigos de  volta com toda sua força: o desmerecedor é culpado. Ninguém nunca diz isso explicitamente, mas por trás de tantos discursos, hoje como ontem, existe a ideia de que a pobreza seja uma culpa. Afinal, o verdadeiro, grande problema da meritocracia é que justifica e legitima as desigualdades. Como se as desigualdades, que desde sempre existiram, e talvez sempre existirão, precisassem de advogados de defesa. É evidente que se confrontarmos meritocracia com clientelismo, o discurso já fica distorcido. O ponto verdadeiro é que a meritocracia se tornou a legitimação ética da desigualdade, em nome de um grande equívoco: que talento seja mérito (e não dom).

O outro efeito colateral diz respeito à pobreza: se o talento é mérito e, portanto, abençoado, o não talento torna-se demérito e amaldiçoado. A pobreza como maldição cresce junto com a meritocracia, basta ver o que acontece nos países mais meritocráticos do mundo. Então, o que fazer? Meritocracia sim ou meritocracia não? Propomos sair do estéril aut-at para propor um debate público sobre a desejabilidade da meritocracia e sobre o conteúdo das ações meritórias que as sociedades desejam recompensar. Um exercício de reflexão coletiva, talvez através do instrumento da democracia deliberativa, onde finalmente possam ruir os muros entre academia e sociedade. A justiça social, ligada às nossas exigências profundas de justiça pessoal, é um dos bens comuns mais preciosos de que dispomos. Mas se não encontrarmos uma maneira de cuidá-lo juntos, corremos o risco de destruí-lo. Vamos pensar nisso!

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