Maria Madalena: a maior e a primeira entre os apóstolos

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 22 Julho 2021

Em janeiro de 2021 o Papa Francisco corrigiu uma das mais duradouras incongruências da Igreja Católica. Francisco instituiu os ministérios do acolitado e leitorado para as mulheres. Foram milhares de anos de incompatibilidade do relato dos Evangelhos com a prática litúrgica da Igreja Católica, pois o anúncio da Boa Nova, a primeira proclamação da Ressurreição saiu da boca de uma mulher: Maria, de Magdala, ou a Madalena.

Neste dia 22 de julho, celebra-se a Festa de Santa Maria Madalena, instituída pelo Papa Francisco em 2016, reconhecendo “que é testemunha de Cristo Ressuscitado e anuncia a mensagem da ressurreição do Senhor, como os outros apóstolos. Por isso, é mais apropriado que a celebração litúrgica desta mulher tenha o mesmo grau de festa que as celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral, revelando a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para cada mulher na Igreja“.

Embora Madalena seja descrita nos Evangelhos como umas das proeminentes amigas e discípulas de Jesus, seu apagamento começa no Novo Testamento e se consolida ao longo da história da Igreja. O culto à Madalena torna-se quase clandestino, perpetuado por mulheres que procuram encontrar uma luz, a do Ressuscitado, não percebida pelos grossos e frios muros e paredes que encastelava um clero predominantemente masculino. Fernanda Di Monte, teóloga italiana, em artigo publicado pelo IHU, afirma que Madalena “é capaz de ver a Luz e acolhê-la, ao contrário dos homens que permanecem nas trevas, e é sua capacidade de escuta e de compreensão que a torna uma líder e autoridade espiritual”.

A distorção sobre o papel da mulher veio no cargo de uma religião que se adaptou à ordem política e aos costumes de sua época, que se absteve de estabelecer os ministérios conforme relato evangélico. O padre Marcello Farina, em entrevista publicada pelo IHU, explica: “Madalena vem antes dos discípulos, e não depois. Infelizmente, porém, as mulheres foram expropriadas de um direito radical: isso dependeu da cultura greco-romana da época, que, em grande parte, foi acolhida pelos cristãos e envolvia o fato de as mulheres terem que ficar em casa”.

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O cardeal italiano Gianfranco Ravasi defende a tese de que a imagem e história de Madalena foi deturpada pela tradição da Igreja, tirando-na do testemunho da Ressurreição, transitando de caluniada à glorificada. Segundo Ravasi, em artigo publicado pela Revista IHU On-LineMaria Madalena foi “uma santa em busca de identidade e, depois, suspensa entre dois extremos: carnalmente abaixada a prostituta ou amante, espiritualmente elevada à Sabedoria transfigurada. Felizmente, como vimos, a única pessoa que a chamou pelo nome, Maria, reconhecendo-a e confirmando-a como discípula, foi o próprio Jesus de Nazaré, seu Mestre, o Rabbuni. E é com base naquele encontro pascal, precisamente, que sua presença reaparecerá, a cada ano, na liturgia católica”.

Por isso o gesto de Francisco ao instituir a Festa de Maria Madalena é considerado por teólogos como surpreendente, mas além disto, a define como “apóstola dos apóstolos”. A teóloga italiana Lilia Sebastianiem entrevista à Revista IHU On-Line, destaca o significado dessa definição: “Para quem conhece um pouco a língua hebraica e o modo como se formam os superlativos, a expressão se enriquece de alguma ressonância posterior: é como se o texto quisesse dizer ‘a maior, entre todos os apóstolos'”.

Para o teólogo José Cristiano Bento dos SantosFrancisco “teve uma leitura sensível e coerente do papel dessa personagem, registrado pelo Evangelho. É uma atitude histórica de reconhecimento da figura de Madalena, não como prostituta, mas como parte integral e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus e protótipo de libertação para os coletivos femininos, que estão dentro e fora da Igreja Católica”.

A percepção da Festa de Maria Madalena como um novo tempo para as mulheres na sociedade e na Igreja também está presente no livro Maria Maddalena La fine della notte, de Sylvaine Landrivon (2020), o qual o IHU publicou esta resenha. Para Landrivon: “Como parece nos convidar a fazer o Papa Francisco através da nova liturgia reservada a Maria Madalena, talvez tenha chegado a hora tanto de reconhecer melhor o valor desse testemunho feminino, tão próximo da revelação, como de conceder em base a tal fundamento às mulheres outras funções na Igreja”.

O teólogo Luigi Sandri defende que a história de Madalena levada a sério gera uma revolução na Igreja. Citando os estudos da historiadora Ally KateuszSandri ressalta que os retratos das mulheres nas artes antigas indicavam as suas participações em ministérios, como na similaridade das vestes com as do episcopado. “Quaisquer que sejam as consequências dos estudos de Kateusz, é evidente que o “não” às mulheres nos mais altos ministérios eclesiais é minado na raiz precisamente pela “missão” que Jesus confiou a Maria Madalena. Aceitá-la obviamente envolverá mudanças profundas na estrutura da Igreja romana e da ortodoxia. Mas rejeitar, agora, a mudança apenas retarda uma revolução que, mais cedo ou mais tarde, será inevitável”, defende Sandri, em artigo publicado pelo IHU.

A revolução ainda não está feita. Em pouco tempo, Francisco estabeleceu duas comissões para estudar o diaconato femininoindicou mulheres para altos cargos no Vaticanoas inseriu nos ministérios do acolitado e leitoradoassim como indicou a possibilidade de voto para mulheres no Sínodo dos Bispos. Porém, os movimentos “vindos de cima”, são pequenos diante dos movimentos das mulheres na base da Igreja. Os protestos na Igreja da França com as candidaturas a cargos da hierarquia, os debates do Sínodo Pan-Amazônico e o avançado debate da Igreja alemã sobre o sacerdócio feminino podem sacudir ainda mais. E o caminho foi aberto no Evangelho, no anúncio da Ressurreição por Madalena, a primeira apóstola.

Confira abaixo outros materiais publicados pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU sobre Maria Madalena

Maria de Magdala. Apóstola dos Apóstolos — Revista IHU On-Line Nº 489

A iniciativa do papa Francisco, de elevar a memória litúrgica de Maria Madalena, no dia 22 de julho, à festa, como um dos Apóstolos, é profética. Segundo Lilia Sebastiani, teóloga italiana, a decisão “inscreve-se na teologia dos gestos, mais do que das inovações doutrinais, e será lembrada como dos aspectos mais significativos de seu pontificado”. Segundo ela, isto “não somente é importante para a história do culto de uma santa, mas para o devir do anúncio Pascal”. Miriam de Magdala é o tema de capa desta edição da IHU On-Line.

Confira a revista na íntegra.

Miriam de Magdala. Pregadora de uma nova fé e em pé de igualdade com os outros apóstolos. Entrevista especial com Katherine L. Jansen

Talvez uma das únicas testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo, Maria Madalena “foi a primeira a ver o Cristo ressuscitado e a primeira a relatar esse evento para os/as demais”, afirma a teóloga Katherine L. Jansen, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Especula-se que ela foi uma “das primeiras e uma dedicada discípula de Cristo, que apoiou financeiramente o seu ministério”.

A pesquisadora adverte que “não se deve cometer o erro de pensar que Maria Madalena fosse quer símbolo do pecado, quer símbolo de evangelização. Ela era pecadora antes de sua conversão, mas depois da Ascensão de Cristo, foi pregadora da nova fé”. Antes de Cristo nada se sabe acerca da vida de Maria de Madalena, “exceto que ela parece ter vindo de uma família relativamente abastada e que ela era solteira. Seu status econômico é indicado pelo fato de o Novo Testamento nos dizer que ela e as outras mulheres que seguiam Cristo lhe serviam com seus próprios recursos.”

Katherine L. Jansen leciona no Departamento de História da Universidade Católica da América, em Washington, nos Estados Unidos. É Ph.D. pela Universidade de Princeton, especialista em Itália Medieval, gênero e mulheres da era medieval, religião e história cultural.

Disponível na íntegra.

‘Diga-nos, Maria Madalena, o que viste no caminho?’. Artigo de Gianfranco Ravasi

“Duas vezes a tradição popular encobriu as características pessoais a Maria Madalena, confundindo-a primeiro com uma prostituta – daqui, todas as representações “carnais” da santa na história da arte – e, em seguida, com a mais pura Maria de Betânia. Enquanto isso, porém, Maria Madalena chegou, de fato, em Jerusalém, na sequela de Jesus, para viver com ele e os discípulos, suas últimas horas trágicas. Todos os evangelistas, na verdade, concordam em registrar sua presença no momento da crucificação e do sepultamento de Cristo”, analisa o cardeal Ravasi.

Gianfranco Ravasi é cardeal, arcebispo católico e biblista italiano, teólogo e estudioso do hebraico. Desde 2007, é presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra e do Conselho de Coordenação das Academias Pontifícias, todos departamentos da cúria romana.

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O poder sob a égide do sagrado: manutenção do domínio religioso e normatização pela crença. Entrevista especial com Ivoni Richter Reimer

A produção de sentidos sobre a figura de Maria Madalena é fértil, dando origem a múltiplas interpretações sobre o papel que essa mulher desempenhou na trajetória da vida de Jesus Cristo e, consequentemente, na construção dos referenciais do cristianismo. De acordo com Ivoni Richter Reimer, a variedade de relatos tem relação com a existência de “diferentes vertentes cristãs nos primeiros séculos, que conclamam a repensarmos a concepção de cristianismo de forma plural e mais fluida”. No entanto, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, a teóloga alerta que, apesar de algumas nuances, a figura de Madalena que predomina originalmente nas escrituras sagradas é a de uma mulher que “é protótipo, ao lado de Maria, mãe de Jesus, de origens de movimentos de libertação. Seus atributos e suas funções de discípula, amada, diácona, testemunha dos feitos de Jesus e da sua morte e ressurreição, apóstola, líder eclesial etc., garantiram-lhe o título de isapóstolos, ‘igual a apóstolo’ na tradição da Igreja Oriental e apostola apostolorum “apóstola dos apóstolos”, na tradição da Igreja Ocidental”.

Todavia, essa imagem foi gradativamente recebendo conotações diferentes, com um intuito mais político do que pastoral, fundamentando-se nos processos de organização patriarcal e hierárquica da Igreja. “Num incisivo e simultâneo processo de ressignificação de Maria Madalena e de combate aos ‘hereges’, começou-se a transformar a apóstolaamada/amantelíder e mestra em pecadoraprostitutapenitente. No imaginário religioso, a Eva pecadora teve sua contraparte na Madalena arrependida”, afirma Ivoni Reimer. Segundo a pesquisadora, “esta foi a Maria Madalena usada para justificar a criação de conventos para mulheres, para afirmação do celibato ou da abstinência sexual. Tirando-se o poder da Maria Madalena apóstola e companheira de Jesus, tirava-se também a força dos movimentos eclesiais madaleanos. A ‘popularização’ dessa ‘outra’ Maria Madalena está intrinsecamente ligada com uma política eclesiástica patriarcal de desempoderamento das mulheres”.

Ivoni Richter Reimer, teóloga luterana, é doutora em Teologia/Filosofia pela Universidade de Kassel, Alemanha, com pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas, Interdisciplinar, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

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A testemunha ocular da Divina Misericórdia. Entrevista especial com Johan Konings

Para compreender o conceito de Misericórdia e relacionar com Madalena na história do cristianismo, é preciso focar nos relatos evangélicos acerca do instante em que Jesus se revela ressurreto. O cenário é narrado nos quatro Evangelhos, mas “é em João que temos a descrição mais ampla da aparição do Ressuscitado à Madalena (Jo 20,11-18)”, destaca Johan Konings. E o professor enfatiza: “a misericórdia não é apenas a condescendência para com os pecadores, mas a chésed, o amor-fidelidade de Deus que se comprova na Cruz, ‘enaltecimento’ de Cristo revelado como glorioso na ressurreição. E é disso que Maria Madalena é testemunha privilegiada”, explica.

Como entender o fato de ser ela, uma mulher entre os homens, a grande testemunha? Na entrevista, a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Konings reconhece essa como uma questão menor. Entretanto, salienta que em toda a caminhada de Jesus fica claro que viu “na igualdade de homem e mulher o ideal do ser humano segundo o projeto de Deus”. Mas, para o professor, a igualdade de gêneros não é a novidade em Jesus. “Faz parte da lei de Deus desde sempre. João, em sua carta, diz que o mandamento é antigo, porém novo em Cristo e em nós (1Jo 2,7-8), e então continua falando sobre o amor fraterno. Aí está a novidade cristã na relação homem-mulher, mais do que na igualdade de direito”.

Johan Konings é padre jesuíta nascido na Bélgica, professor titular da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Filósofo e filólogo, concluiu o doutorado em Teologia na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.

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Os limites do reconhecimento masculino sobre a mulher. Entrevista especial com Antonietta Potente

Antonietta Potente reconhece que hoje há movimentos sensíveis a questões femininas. Porém, reitera que isso ainda se dá numa posição varonil, que desconsidera os espaços e caminhos abertos pelas próprias mulheres ao longo da história.

Não há quem negue que os movimentos feministas abriram espaços no espectro social para as mulheres, colocando-as no mesmo grau que os homens. Entretanto, há mais nuances que parecem ainda não terem sido compreendidas. Isso fica claro quando a teóloga Antonietta Potente analisa a figura da mulher na Igreja de hoje, inspirada pela imagem de Maria Madalena. Para ela, a sensibilidade do papa Francisco para com o outro abre as portas da Igreja para refletir sobre muitos temas, entre eles o feminino no catolicismo.

Antonietta ainda enfatiza: “Tenho a impressão de que [o papa, os homens] me trata sempre, e a minhas companheiras mulheres, como pobrezinhas, a não ser que reflitamos os paradigmas que eles têm em seu imaginário”. Ela chama atenção como esse detalhe ruidoso na relação entre o masculino e o feminino sempre existiu e se perpetua desde o anúncio feito por Madalena, quando os homens não compreendem a mensagem.

Antonietta Potente é doutora em teologia moral e religiosa da Congregação das Irmãs Dominicanas de São Tomás de Aquino. Lecionou em diferentes centros de estudos e universidades teológicas da Itália até 1994, quando foi viver na Bolívia. Lá, seguiu sua atividade de docência e escritora. Buscando uma integração maior, morou com uma família indígena nos arredores de Cochabamba. De volta à Itália, desde 2012, colabora com a Faculdade de Filosofia da Universidade Estatal de Verona.

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A história do mito e a falsificação. Entrevista especial com Lilia Sebastiani

Para a teóloga Lilia Sebastiani, não se pode falar apenas “na” história de Maria Madalena porque são várias as histórias que se criam em torno da personagem bíblica, embora muitas delas sejam interpretações – por que não dizer até misóginas – de quem não vai de fato na exegese do que está na escritura. “A história do mito da Madalena na Igreja ocidental é a história de uma grande falsificação, mantida por séculos”, dispara, ao se referir à associação de Madalena tanto com a pecadora quanto com a irmã de Lázaro. “A história da Madalena pré e pós-evangélica, popularizada pela Legenda Áurea de Jacopo da Varazze, completamente fantasiosa, cheia de elementos aventureiros e patéticos, obteve grande sucesso”.

Lilia comemora o resgate que vem tendo a essência da personagem. Entretanto, lamenta o fato de isso ocorrer ainda em poucos círculos, como apenas entre teólogos. “Hoje, o mal-entendido foi superado, na teoria, mas persiste ainda fortemente na mentalidade. Quem não tem conhecimento dos Evangelhos, e ouve falar de Maria Madalena, ainda pensa na mulher de vida fácil, que de alguma maneira se arrependeu, e não na discípula predileta, e não na apóstola da Ressurreição”, explica.

Lilia Sebastiani é formada em Literatura Moderna pela Universidade de Roma “La Sapienza”, com doutorado em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana, Instituto Superior de Teologia Moral na Universidade Lateranense.

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Maria Madalena, “a teóloga da Páscoa”. Artigo de Xabier Pikaza

“Com Jesus que sobe ao Pai, unidos a Maria Madalena, no centro da Igreja, devemos iniciar um caminho de ascensão salvadora, que nos conduz de verdade até o mistério de Deus. Maria é a primeira daqueles que fizeram esta experiência pascal”, escreve Xabier Pikaza, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 25-04-2019. A tradução é do Cepat.

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Madalena, a grande

O livro “Maria Madalena. Equívocos, histórias, representações“, de Adriana Valerio, lançado em 2020, na Itália, é comentado pelo filósofo e padre italiano Sergio Massironi. Valerio propõe-se à “uma revolução hermenêutica tocando o coração do cristianismo”. Massironi comenta que ” a revolução em que Adriana Valerio acredita vem de longe e tem a ver com a ‘estatura’ de uma discípula cuja autoridade os Evangelhos não escondem, embora seja de uma qualidade tão nova que ainda resulte em grande parte incompreendida”.

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A luz de Madalena sobre a Igreja nascente

Talvez justamente por causa da crescente exclusão das mulheres das funções de liderança, muitas mulheres encontram acolhimento naquelas comunidades que entenderam a importância da figura de Madalena como destinatária da revelação de Cristo ressuscitado. De fato, em um contexto de experiências divergentes, altamente variadas e complexas, a partir do século II, difunde-se o movimento gnóstico ao qual muitos grupos cristãos se vinculam, desejosos por percorrer os caminhos do conhecimento (gnose) e da sabedoria (sophia) e as mulheres são os protagonistas indiscutíveis dessas comunidades que conservaram uma memória de Maria Madalena.

O artigo é de Fernanda Di Monte, religiosa Filha de São Paulo, jornalista italiana, especialista em comunicação e informação religiosa.

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Igreja em crise com Madalena

Festa litúrgica de Santa Maria Madalena, um evento que para os “leigos” e católicos distraídos, diz pouco; muito, ao contrário, para aqueles que sabem que um repensamento da Igreja a partir da tarefa que Jesus confiou àquela mulher implicará uma autêntica revolução na maneira de se organizar o cristianismo na história.

As Escrituras cristãs testemunham que, nas origens da Igreja, para anunciar o núcleo central de sua mensagem, Jesus quis uma mulher. Ela não estava, portanto, “sob” os apóstolos, mas no mesmo nível. De fato, entretanto, as comunidades cristãs – esta é a história, com poucas exceções, contadas até hoje – teriam se estruturado todas excluindo a mulher dos ministérios do presbiterado e do episcopado, reservados aos homens.

O artigo é de Luigi Sandri.

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Maria Madalena, empoderamento do feminino na visão do Papa Francisco

A justa iniciativa do Papa Francisco de elevar Maria Madalena ao status de apóstola é uma leitura sensível e coerente do papel dessa personagem, registrado pelo Evangelho. É uma atitude histórica de reconhecimento da figura de Madalena, não como prostituta, mas como parte integral e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus e protótipo de libertação para os coletivos femininos, que estão dentro e fora da Igreja Católica.

A Igreja Católica, finalmente, através do Papa Francisco, dedicou-lhe um dia, declarando-a apóstola para os apóstolos. Essa tomada de decisão feita por Francisco é a expressão de uma revolução antropológica que toca a mulher e investe sobre toda a realidade cultural e eclesial. A instituição dessa festa, de fato, pode ser lida e interpretada como uma desnaturalização da cultura patriarcal e machista, que não aceita o protagonismo das mulheres no grupo dos discípulos de Jesus e nos espaços de decisão da própria Igreja Católica.

O artigo é de José Cristiano Bento dos Santos, padre da Arquidiocese de Londrina, filósofo e teólogo.

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“Maria Madalena e o futuro da Igreja, uma história por escrever”, por Xabier Pikaza

É muito bom conhecer melhor a histórica Maria Madalena… mas isso não resolveria os problemas. Não há Madalena histórica separada e fixada no passado, mas um caminho aberto por Maria Madalena e Pedro e pelos outros seguidores de Jesus. Nesse sentido, a história de Madalena ainda não está escrita, nós vamos escrevê-la, madalenas e madalenos…

Nesta entrevista, o teólogo basco Xabier Pikaza apresenta algumas obras sobre Maria Madalena e promove o debate histórico sobre Maria Madalena.  

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Como a Igreja pode exaltar as mulheres? Elevando a festa de Maria Madalena à solenidade

Chegou a hora de elevar ainda mais a festa de Santa Maria Madalena a uma solenidade. Conceder a esta grande mulher igual dignidade à natividade de João Batista. Esta seria uma boa maneira de reconhecer João e Maria como os atores fundamentais no anúncio das Boas Novas da Salvação: o primeiro anunciando o Cordeiro de Deus para o mundo, e a segunda anunciando a Ressurreição aos apóstolos assustados.

Elevar a festa de Santa Maria Madalena a uma solenidade concederia a esta grande mulher igual dignidade com a natividade de João Batista.. Esta seria uma boa maneira de reconhecer tanto João como Maria como atores fundamentais no anúncio das boas novas da salvação: o primeiro anunciando o Cordeiro de Deus para o mundo e a segunda anunciando a ressurreição aos apóstolos assustados.

A solenidade de Santa Maria Madalena também proveria uma medida extra de encorajamento para todas as mulheres que trabalham nos ministérios da Igreja a serviço daquelas que estão nas periferias da sociedade.

O artigo é de Alvan I. Amadi, padre da diocese de Green Bay, EUA.

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Maria de Magdala, a grande “Apóstola dos Apóstolos”. Entrevista especial com Christine Schenke

Nem prostituta, nem esposa de Jesus: Maria Madalena foi a principal testemunha da Ressurreição e “uma líder feminina que entendeu a missão de Jesus melhor do que os discípulos homens”. Como a Igreja Oriental, devemos honrá-la como “a Apóstola dos Apóstolos”, defende Christine Schenke.

“Não é possível contar a história da Ressurreição sem falar também de ‘Maria, a de Magdala’”. Foi essa mulher que, depois de ir ao túmulo onde Jesus havia sido depositado depois da crucificação, “viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo e saiu correndo”, como relata o Evangelho, para se encontrar com os discípulos e lhes contar a grande notícia. Segundo Chris Schenke, CSJ, diretora-executiva da FutureChurch (futurechurch.org), organização norte-americana de renovação da Igreja, essa é a grande importância e o legado de Maria Madalena, uma das primeiras místicas do cristianismo que viveu “a experiência da Ressurreição”.

Em entrevista por e-mail à IHU On-LineChris busca desmontar por inteiro qualquer referência negativa a Maria Madalena: “Não há nada nas Escrituras que sustente a ideia de que ela era uma prostituta” e, “se Maria de Magdala fosse a esposa de Jesus e a mãe de seu filho, é altamente improvável que esses textos teriam omitido esses fatos importantes”. Ao contrário, para a religiosa da congregação das Irmãs de São José, Madalena foi a principal testemunha da Ressurreição e “uma líder feminina que entendeu a missão de Jesus melhor do que os discípulos homens”. “Curiosamente – afirma –, a Igreja Oriental nunca a identificou como uma prostituta, mas honrou-a ao longo da história como ‘a Apóstola dos Apóstolos’”.

Christine Schenke, CSJ, é religiosa da congregação das Irmãs de São José e diretora-executiva da FutureChurch (futurechurch.org), organização norte-americana de renovação da Igreja, que atua pela plena participação de todos católicos e católicas em todos os aspectos da vida e do ministério da Igreja; tem mestrado em Enfermagem-Obstetrícia e em Teologia.

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Paulo e Madalena: dois caminhos que levam ao Cristo. Entrevista especial com Christine Schenke

Christine Schenke defende que pelo resgate da história de liderança coigual da mulher na Igreja primitiva é possível pensar na igualdade em todos os ministérios, rompendo com a dualidade na disputa de gênero

grande luta do feminismo pode ser resumida a uma palavra: igualdade. Por essa perspectiva, mulheres querem ter a oportunidade de ocupar o mesmo espaço – e com o mesmo prestígio – que os homens. Chris Schenk, da FutureChurch, destaca que Jesus faz esse movimento, igualando homens e mulheres nas suas potências. Mais tarde, seguido por Paulo de Tarso. Ela entende que essa perspectiva da mulher potente na Igreja primitiva foi se perdendo e, para pensar em igualdade hoje, defende o resgate a esse princípio. “Resgatar a história da liderança coigual das mulheres na igreja primitiva contribui para preparar o terreno para a igualdade das mulheres em todos os ministérios da igreja, como foi visionado pela primeira vez por Jesus e S. Paulo”, enfatiza.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-LineChris demonstra que a igualdade de gênero vem pelo reconhecimento de cada um em sua especificidade, no que entende como reconhecimento coigual entre ambos. Ideia que fica clara, por exemplo, quando questionada sobre as diferenças de uma – suposta – mística feminina. “No caso de Teresa [de Ávila] e João [da Cruz, ambos místicos], é de se perguntar se as diferenças em suas experiências místicas se devem ao seu gênero ou mais ao fato de que Teresa era mais extrovertida do que João”, acentua. A provocação de Chris coloca em suspenso até as apressadas conclusões acerca de uma ideia de ministério de homens, que sufocou o de Maria Madalena. “A experiência de Maria se deu logo depois de testemunhar a morte brutal e o sepultamento de Jesus, de modo que o impacto de ver a nova vida de Jesus deve ter sido avassalador. A experiência de Paulo se deu depois de meses de perseguição à igreja recém-nascida. A experiência dele também foi avassaladora, mas por razões diferentes”, reflete.

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Pregadora de uma nova fé e em pé de igualdade com os outros apóstolos. Entrevista especial com Katherine L. Jansen

Solteira e vinda de uma família abastada, Maria Madalena é tida como uma das únicas a testemunhar a ressurreição de Cristo. Para Katherine L. Jansen, é motivo de alegria que o Papa Francisco tenha elevado seu dia ao quilate dos demais apóstolos

Talvez uma das únicas testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo, Maria Madalena “foi a primeira a ver o Cristo ressuscitado e a primeira a relatar esse evento para os/as demais”, afirma a teóloga Katherine L. Jansen, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Especula-se que ela foi uma “das primeiras e uma dedicada discípula de Cristo, que apoiou financeiramente o seu ministério”.

A pesquisadora adverte que “não se deve cometer o erro de pensar que Maria Madalena fosse quer símbolo do pecado, quer símbolo de evangelização. Ela era pecadora antes de sua conversão, mas depois da Ascensão de Cristo, foi pregadora da nova fé”. Antes de Cristo nada se sabe acerca da vida de Maria de Madalena, “exceto que ela parece ter vindo de uma família relativamente abastada e que ela era solteira. Seu status econômico é indicado pelo fato de o Novo Testamento nos dizer que ela e as outras mulheres que seguiam Cristo lhe serviam com seus próprios recursos.” Jansen, cuja pesquisa fundamental é centrada em Maria Madalena, comemora que sua figura esteja, finalmente, “recebendo o devido reconhecimento, na Igreja moderna, ao menos na liturgia”. E acrescenta: “Estou muito contente em ver que o papa Francisco elevou o dia em que se festeja Maria Madalena de um dia memorial para um dia festivo em pé de igualdade com os outros apóstolos”.

Katherine L. Jansen é Ph.D. pela Universidade de Princeton, especialista em Itália Medieval, gênero e mulheres da era medieval, religião e história cultural. É autora de Medieval Italy: Texts in Translation (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2009), coeditado com Joanna Drell e Frances Andrews, e de The Making of the Magdalen: Preaching and Popular Devotion in the Later Middle Ages (Princeton: Princeton University Press, 2000).

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A transcendência de Madalena: múltiplas faces no espírito dos tempos. Entrevista especial com Régis Burnet

Diferentes perspectivas, intencionalidades e modos de ver a trajetória de Jesus resultaram em um painel multifacetado de interpretações não só sobre os atos desse importante personagem da história da humanidade, mas também acerca das figuras que de algum modo experienciaram diretamente a convivência com Cristo ou se debruçaram no legado deixado por ele. Uma dessas personalidades que fazem parte da construção da narrativa cristã é Maria Madalena, a quem foram atribuídos traços e perfis que ainda continuam em processo de recriação constante, revelando pistas sobre os diferentes tempos e sociedades em que foram idealizados. Entretanto, um ponto é pacífico dentro dessa multiplicidade de conotações: a força da presença dessa mulher, que atravessa as épocas e se mantém vívida.

Conforme nos chama a atenção o filósofo e doutor em Ciências Religiosas Régis Burnet, “a memória de Madalena nunca morreu, como demonstra a moda do uso do seu nome, que a lembra em todas as línguas: MadeleineMagdeleineMaddalenaMagdelen etc.”. Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor e pesquisador alerta que “mesmo que nossa modernidade tenha a impressão de que “faltam mulheres” no Novo Testamento, constatamos que Jesus dá a elas um lugar que não possuíam nos outros contextos religiosos (seja nos textos do paganismo, seja nos do judaísmo, por exemplo)”.

Para Burnet, independente das interpretações que se possa fazer acerca de Madalena, se sobressai a importância da figura feminina, apesar dos obstáculos e tentativas de apagamento. Bergoglio, ao resgatar a memória dessa personagem bíblica, atualiza esse debate na sociedade e no clero. “O gesto do Papa me parece ser uma maneira, talvez, de reconhecer o lugar surpreendente (para a época) que as mulheres ocupavam junto de Jesus, mas, sobretudo, um apelo a um maior reconhecimento delas na Igreja de hoje”, frisa.

Régis Burnet é doutor em Ciências Religiosas pela École Pratique des Hautes Études, em Paris. Entre suas publicações mais importantes destacam-se Paroles de la Bible (Paris: Seuil, 2011), L’Évangile de la trahison, une biographie de Judas (Paris: Seuil, 2008), Marie-Madeleine. De la pécheresse repentie à l’épouse de Jésus (Paris: Cerf, 2008) (2ª edição) e Le Nouveau Testament (Que Sais-Je?) (Paris: PUF, 2004).

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