É A HOMOSSEXUALIDADE UMA DESORDEM? – NICHOLAS WOLTERSTORFF (TRADUÇÃO)

Iniciarei este texto com dois comentários introdutórios. Em primeiro lugar, preciso dizer que não sou especialista em nenhum dos assuntos que discutiremos. Não sou psicólogo, nem um erudito bíblico ou um especialista em ética cristã. Sou um amador em todas essas áreas. No entanto, não sou alguém completamente desinformado. Tenho ouvido a algumas palestras sobre o assunto e lido alguns livros e artigos. Mas eu não sou um especialista que fala com autoridade. (Permitam-me acrescentar, entre parênteses, que quando se trata de questões de interpretação bíblica e ética cristã, há tanta discordância sobre este assunto, mesmo entre aqueles que se especializam nessas áreas, que acho que ninguém deve se apresentar como uma autoridade). 

Sendo assim, estes textos não terão o formato de uma argumentação sobre como você deve ou não pensar sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao invés disso, irei simplesmente narrar como cheguei a pensar sobre o assunto como penso agora. Meus textos, em resumo, serão autobiográficos. Eles serão, em grande parte, uma repetição do que eu disse na única outra palestra que dei sobre este assunto – uma palestra que dei na Neland Ave. CRC em outubro de 2016. O que vou dizer nestes textos é praticamente uma repetição do que eu já disse nessa outra ocasião. 

Em segundo lugar, preciso considerar que onde quer que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo tenha surgido dentro da igreja cristã na América do Norte ou na Europa, ele provou ser extremamente controverso; separou congregações e denominações. Houve controvérsias recentes que eclodiram na Igreja Metodista Unida e em igrejas reformadas.   

Eu passei por duas controvérsias intensas e prolongadas dentro da Igreja Cristã Reformada, e agora estou passando pela terceira. A primeira controvérsia ocorreu na minha adolescência e no início dos meus 20 anos, passei por uma intensa e prolongada controvérsia sobre o divórcio: “As pessoas que se divorciaram e se casaram novamente podem ser apropriadamente membros da igreja?” “Não estariam elas vivendo em adultério?” Na meia-idade, passei por uma intensa e prolongada controvérsia sobre a ordenação de mulheres. Esta agora é a terceira controvérsia. 

Sempre que recuo e reflito sobre as duas controvérsias pelas quais passei, e agora nesta terceira, lembro-me da controvérsia no Concílio de Jerusalém, conforme registrada em Atos 15. A questão era se, em relação aos convertidos gentios, “era necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés.” (15.5). Os cristãos judeus que eram membros do partido fariseu no judaísmo disseram que tinham que ser; caso contrário, eles “não poderiam ser salvos” (15.1). Os apóstolos Pedro e Tiago, juntamente com Paulo e Barnabé, argumentaram, com base nas conversões gentílicas que testemunharam, que não era necessário. Eventualmente, o conselho decidiu que tudo o que era exigido dos convertidos gentios era que eles “se abstivessem das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue.” (15.20). Nas epístolas de Paulo, aprendemos que ele mesmo nem exigiu dos gentios convertidos a quem escreveu que eles se abstivessem de comer a carne sacrificada aos ídolos. 

Pense nessa decisão por um momento. Os apóstolos foram criados no judaísmo tradicional. No entanto, eles decidiram que quase nenhuma das leis de Moisés deveriam ser requeridas dos convertidos gentios – em particular, o sinal distintivo da circuncisão não deveria ser requerido. As questões debatidas nas três grandes controvérsias que passei na Igreja Cristã Reformada são de pouca importância diante da questão discutida no Concílio de Jerusalém. 

Então, citarei as palavras de Larry Borst: “Sobre este assunto, precisamos ouvir uns aos outros, falar gentilmente, estar abertos à posição da outra pessoa, ter em mente que ele é um companheiro seguidor de Cristo.” Mesmo enquanto temos discordâncias, precisamos viver de maneira pacífica e em caridade. Se foi possível à igreja primitiva viver com discordâncias sobre se a lei de Moisés ainda era válida, podemos viver com discordâncias sobre se o casamento entre pessoas do mesmo sexo é aceitável. 

Eu cresci com visões tradicionais a respeito destes assuntos. A mudança dessas visões para minhas visões atuais tem sido gradual, estendendo-se por muitos anos; não houve nenhuma experiência repentina na estrada de Damasco. 

O que me levou a mudar meu ponto de vista? Foram principalmente duas coisas: 

Primeiro, a experiência. Quando eu ainda estava no ensino médio, soube que dois primos, amados por todos da minha família, eram gays. Quase imediatamente, depois que essas notícias se espalharam por toda a família, a maneira como os membros da família falaram sobre os homossexuais mudou; não havia mais condenação direta e instantânea. 

Então, um dia, quando eu estava na faculdade e Claire e eu estávamos namorando, Claire me disse que seu pai – que eu admirava muito – era gay. Na época, eu não tinha como processar essa informação. Eu apenas captei a informação. 

Então, depois de lecionar na Universidade por algum tempo, soube que alguns dos que haviam sido meus alunos eram gays. Eu não sabia disso quando dei aula para eles. 

Mais recentemente, conheci pessoas que vivem em relacionamentos homossexuais comprometidos; em alguns casos, elas são casadas. 

Eu ouvi todas essas pessoas – suas agonias, raivas, seus sentimentos de exclusão, opressão e humilhação, seus anseios, suas expressões de amor, seus compromissos, sua fé. Essa escuta me mudou. 

Outra coisa que me levou a mudar minha maneira de pensar sobre estes assuntos é o que aprendi com os estudos de sexualidade que apareceram nos últimos 40 ou 50 anos – estudos que acompanhei como leigo. Esses estudos me levaram a entender a homossexualidade de maneira muito diferente de como eu a entendia anteriormente. 

A primeira coisa que mudou em meu pensamento foi que agora eu distinguia entre orientação sexual e prática sexual – uma distinção comum na literatura sobre essas questões há cerca de 50 anos. No início, não fazia essa distinção, nem conhecia alguém que a fizesse. A ideia de orientação sexual nunca me ocorreu. Eu nunca me perguntei por que algumas pessoas se envolviam em práticas homossexuais; tudo que eu sabia era que elas se envolviam. Agora começava a entender a razão. 

Tendo sido apresentado à distinção entre orientação e prática sexual, pensei, a princípio, na orientação sexual de uma maneira muito binária: há quem tenha uma orientação heterossexual e há quem tenha uma orientação homossexual. Mas não demorou muito para que eu percebesse – com evidências de vários estudos – que essa não era a maneira certa de pensar sobre o assunto. Ao invés disso, estamos lidando aqui com um continuum. Em uma extremidade do continuum estão aqueles cuja orientação é inteiramente heterossexual, ao lado deles estão aqueles cuja orientação é predominantemente heterossexual, mas que sentem alguma atração pelo mesmo sexo, depois aqueles que são bissexuais, aqueles cuja orientação é predominantemente homossexual, mas que sentem alguma atração por outro sexo e, finalmente, aqueles cuja orientação é inteiramente homossexual. Além disso, há quem diga que não experimenta nenhuma atração sexual; eles estão fora do continuum. E há as pessoas transgêneros, que não se identificam com o sexo que lhes foi designado ao nascer. 

Até onde eu sei, todos concordam que ninguém escolhe a posição que ocupa nesse continuum de orientação sexual; trata-se de um aspecto do que a pessoa é, embora ele tenha se constituído – seja por herança genética ou por condicionamento social. Aparentemente, em alguns casos, a posição que uma pessoa ocupa no continuum é um pouco fluida, mudando um pouco ao longo de sua vida. Mas ninguém acha que a posição ocupada pela pessoa foi uma escolha. 

Segundo o que li na literatura, a ideia de que existe algum tipo de “terapia” que mudará a orientação sexual de alguém é agora quase universalmente rejeitada. Assim, quase todo mundo concorda que ninguém deve ser responsabilizado por ser homossexual. 

Muitos pais – cristãos e não cristãos – acham difícil aceitar que seu filho é gay. Mas quase todos os líderes da igreja agora dizem que pessoas com orientação homossexual devem ser aceitas com amor na igreja. Isso também é verdade para a Igreja Cristã Reformada e existe desde a declaração sinodal de 1973 sobre esses assuntos. Este é um desenvolvimento importante e marcante. 

Em janeiro de 2016, um comitê de estudo apresentou à Classis Grand Rapids East da Igreja Cristã Reformada um relatório intitulado “Relatório sobre apoio bíblico e teológico atualmente oferecido por proponentes cristãos do casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Eu acho que é um excelente trabalho. À luz da imagem da sexualidade humana que acabei de apresentar, o comitê levantou uma questão que eu vinha me perguntando há algum tempo: é atração pelo mesmo sexo o que o comitê chama de “desordem”, ou é tal atração o que o comitê chama de “variação criacional” ? Em seu relatório, o comitê não deu uma resposta definitiva à sua pergunta. Deixe-me explicar como cheguei a pensar sobre o assunto. 

A primeira coisa a se observar é que, mesmo que a atração pelo mesmo sexo seja uma desordem, não se segue que seja errado praticar a homossexualidade. Tudo depende, caso o seja, de qual tipo de desordem se trata. Eu sou fortemente canhoto. Tentei escrever com a mão direita, mas não consigo. Ser canhoto é uma desordem? Se não houvesse a Queda, todos seriam destros? Eu não sei. Mas se é uma desordem, não é o tipo de desordem cuja prática decorrente é errada. Por outro lado, a cleptomania – o impulso de roubar – é uma desordem cuja prática decorrente é errada. 

Como responder à pergunta se alguma orientação sexual é uma desordem ou uma variação criacional? Mais particularmente, como responder à pergunta se a atração pelo mesmo sexo é uma desordem ou uma variação criacional? 

A tradição católica, com sua abordagem da ética na lei natural, oferece uma maneira de responder à pergunta. Olhando em volta para o reino animal em geral, o especialista em direito natural conclui que o propósito da atividade sexual ordenado por Deus é a procriação; essa é a sua função adequada. A prática homossexual obviamente não é procriadora. É, portanto, contra a nossa natureza dada por Deus; e uma vez que é contra a nossa natureza dada por Deus, é moralmente errada. E se a prática é contrária à nossa natureza dada por Deus, então a inclinação para se envolver em tal prática é uma desordem. 

Uma resposta bastante comum a essa linha de argumentação é que, no reino animal, há práticas sexuais entre animais do mesmo sexo. O que considero uma resposta mais importante é que devemos resistir a pensar na sexualidade humana em termos animalescos reducionistas: a sexualidade nos seres humanos é muito mais complexa do que nos animais; envolve fatores psicológicos, como o desejo de um certo tipo de intimidade, que estão completamente ausentes nos animais. 

Mas consideremos esses pontos. Será que concordamos mesmo que o propósito do sexo é a procriação? Esse é, obviamente, um de seus propósitos. Mas duvido que acreditemos que é realmente contrário à vontade de Deus se envolver em sexo sem o objetivo de procriar. Será mesmo que acreditamos que métodos anticoncepcionais são errados? E mesmo a igreja católica, que proíbe oficialmente a contracepção por razões de direito natural, permite o casamento de casais que estão acima da idade fértil, embora eu não saiba qual a justificativa que eles dão para isso. 

Consideremos outro ponto quanto à resposta à pergunta se a atração pelo mesmo sexo é uma desordem ou uma variação criacional. Eu mencionei a cleptomania – o impulso de roubar. A atração pelo mesmo sexo pode ser como a cleptomania? Parece claro que há um continuum de inclinação para roubar, com pessoas que não têm inclinação para roubar em uma extremidade do continuum e cleptomaníacos graves do outro lado, e com a posição ocupada pela pessoa no continuum não sendo uma questão de escolha. 

Ter uma inclinação para roubar claramente é uma desordem, uma marca da Queda, não uma variação criacional. Por quê? Porque o ato de roubar é moralmente errado. Por que ele é errado? Porque é uma violação do mandamento do amor. Disso se segue que a inclinação para roubar é uma desordem, não uma variação criacional. É uma desordem moral. 

Seguindo esse modo de pensar sobre o assunto, se a atração pelo mesmo sexo é ou não uma desordem ou uma variação criacional, depende se a prática homossexual, como roubar, é inerentemente uma violação do mandamento do amor. É, por exemplo, uma prática inerentemente abusiva? 

Pelo que pude observar, a resposta é não. Tenho observado muitos dos que têm uma orientação homossexual e que vivem de acordo com seus desejos no que me parece um relacionamento comprometido e amoroso. Até onde posso ver, não estão violando o mandamento do amor. 

Deixe-me resumir onde cheguei em meu pensamento sobre se a atração pelo mesmo sexo é uma desordem ou uma variação criacional. Eu explorei duas linhas de pensamento, uma das quais, se convincente, leva à conclusão de que a orientação por pessoas do mesmo sexo é uma desordem: a linha de pensamento católica da lei natural e uma segunda linha de pensamento mais protestante na qual o amor é o fator-chave. Nenhuma delas me parece convincente. Não conheço outra razão para pensar que seja uma desordem. Então, eu fico com a conclusão de que é, ao invés de uma desordem, uma variação criacional. 

Neste ponto, na mudança de meus pontos de vista, a pergunta que começou a se agitar em minha mente foi a seguinte: se ter uma orientação homossexual não é condenável nem uma desordem, e se, consequentemente, os membros da igreja devem aceitar amorosamente pessoas com tal orientação, então por que seria intrinsecamente errado que elas ajam de acordo com seus desejos? Se não há problema em pessoas com orientação heterossexual agirem de acordo com seus desejos – desde que o façam em um relacionamento de compromisso amoroso -, por que seria errado as pessoas com orientação homossexual agirem de acordo com seus desejos, ainda que no contexto de um compromisso amoroso? Agir de acordo com seus desejos em um relacionamento de compromisso amoroso não é, até onde eu possa ver, uma violação do propósito divino do sexo ou uma violação do mandamento do amor. Então, por que seria errado que eles fizessem isso?  Essa, eu digo, é a pergunta que começou a incomodar minha mente. 

Eu sabia, é claro, que muitos cristãos discordam da conclusão a que eu estava sendo levado. Por exemplo, a declaração da Igreja Cristã Reformada de 1973 declara explicitamente que a atração pelo mesmo sexo é uma desordem e que é sempre errado agir com base nos sentimentos de atração pelo mesmo sexo. A razão pela qual a declaração de 1973 deu sua posição é que aprendemos nas Escrituras que, aos olhos de Deus, a prática homossexual é sempre errada. Além daqueles que adotam a posição da lei natural católica, a maioria dos cristãos que defende que a prática homossexual é sempre errada o faz com base em sua interpretação das Escrituras. 

Então, neste ponto de minhas reflexões, voltei-me para as Escrituras. Será que eu tinha esquecido alguma coisa? Será que as Escrituras trazem à tona uma maneira pela qual a prática homossexual é inerentemente desamorosa, uma maneira que eu havia ignorado? Ou será que as Escrituras ensinam que Deus declara que ela é errada, mesmo que ela seja uma prática amorosa? Isso seria realmente estranho: que Deus considerasse errada uma prática mesmo que ela não violasse o mandamento do amor. Eu teria que descobrir o que fazer com isso. Mas a pergunta anterior é se as Escrituras realmente ensinam que, aos olhos de Deus, a prática homossexual é sempre e em toda parte errada. 

Portanto, no próximo texto (aqui), examinarei o que as Escrituras dizem a respeito da homossexualidade. 

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