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A IRA DA PALAVRA: GUERRA CULTURAL E RETÓRICA DO
ÓDIO

A IRA DA PALAVRA: GUERRA CULTURAL E RETÓRICA DOÓDIO

Yuri Holanda Cruz1
LEPEM-UFC: https://orcid.org/0000-0002-7810-223X
DOI: 10.21680/1982-1662.2021v4n32ID25175
ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um
Brasil pós-político. 1ª Edição. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.

Contato: : yuriholandacruz@willianpereira

ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um
Brasil pós-político. 1ª Edição. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.
A formação acadêmica do autor fala sobre sua obra. Não poderia ser diferente.
João Cezar de Castro Rocha, além de escritor, é professor titular da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mesma escola que lhe graduou em História e onde
concluiu mestrado e doutorado em Letras. No seu segundo doutoramento, na
Universidade de Standford, dedicou-se à Literatura Comparada. É autor de 13 livros. O
material que agora resenhamos, publicado neste inquietante 2021, contribui para o
esforço de compreensão do Brasil hodierno. Guerra Cultural e Retórica do Ódio
merece leitura por seu conteúdo (a análise da mentalidade bolsonarista), método (a
etnografia textual) e estilo comunicacional. Tema complexo, redação apurada.
O professor recebe seu leitor com uma premissa esclarecida, democrática por
definição: é preciso respeitar o resultado das urnas, portanto, conclui, Jair Messias
Bolsonaro inaugurou seu mandato presidencial de forma legítima. Ato contínuo, ainda
nas páginas inaugurais, define o bolsonarismo como um movimento. Como tal,
antecedeu (talvez não com esse nome, é bem verdade) e ultrapassará o indivíduo e o
governo Bolsonaro. Nessa qualidade, de ser movimento, é dotado de uma cesta de
ideias e padrões de comportamento justificados por certa lógica. Entender essa lógica
é a que se propõe o livro. Para fazê-lo, o autor sugere, com discernimento de

pesquisador experimentado, deslocar-se da caricatura ingênua para a caracterização
do fenômeno. E o que caracteriza o bolsonarismo? Inevitáveis aspas para o autor:
“E se o bolsonarismo não somente existir como também tiver articulado
uma visão de mundo bélica, expressa numa linguagem específica, a
retórica do ódio, e codificada numa visão de mundo coesa, composta
por labirínticas teorias conspiratórias, e que advoga a eliminação de
tudo que não seja espelho? Esses elementos forjaram um poderoso
sistema de crenças, responsável pelos míticos 30% que parecem resistir
ao mais elementar princípio de realidade”. (ROCHA, 2021, p. 344.
Grifos no original).
Esse parágrafo sumariza os dois eixos essenciais para compreender a obra como
um todo. Eixos fundamentais ao ponto de intitular o livro: guerra cultural e retórica
do ódio.
Primeiro eixo: A guerra cultural. João Cezar anota que ela é baseada naquilo
que nominou sistema de crenças Olavo de Carvalho. Um conjunto de elementos
intelectualmente organizados e dispostos de forma relacional que, uma vez
internalizado, resiste às contestações externas. Como um sistema de crenças, não tem
compromisso com o factual, mas apenas com sua coerência interna. Ao longo dos
capítulos, o leitor encontrará os principais elementos desse sistema. Convém destacar
alguns deles:
A Doutrina de Segurança Nacional, analisada sob a evolução e recrudescimento
de seus tipos normativos (Lei de Segurança Nacional) durante a ditadura. Esse é o
escopo da formação militar de Bolsonaro. Aqui o leitor é remetido para o legalismo da
ditadura que normalizava e autorizava a violência estatal.
O ORVIL: documento militar de carga dramática, concluído em 1988, e que
passou a ser conhecido do público apenas em 2007. Carrega um modelo narrativo que
assume patente uma ameaça comunista permanente. ORVIL (ou “livro” lido de trás
para frente) reescreve o passado e denuncia que está em curso um plano arquitetado
para a doutrinação das mentes dos brasileiros. O professor João Cezar pretende
explicar como, ainda hoje, a ideia do inimigo interno é manejada como fomento às
fantasias autoritárias.
A perseguição ao chamado marxismo cultural. A ideia de que, durante a última
ditadura, os militares venceram a luta armada contra os grupos radicais de esquerda,
evitando a ditadura do proletariado, nada obstante, perderam a guerra no campo

cultural (academias, música, artes cenográficas e demais fronts culturais). Esse campo
seria então permeado por mensagens subliminares com intenção doutrinadora.
O Sistema de Crenças Olavo de Carvalho ainda conta com teorias da conspiração
e diversos subelementos que parecem ter estruturas narrativas assemelhadas (nova
ordem mundial, maçonaria, globalismo, esquerdismo, ideologia de gênero,
gramscismo, Foro de São Paulo, Método Paulo Freire e outros moinhos de vento aos
milhares). O professor João Cezar percebe essa guerra cultural como uma estratégia
de mobilização das massas e anota a urgência em entender sua lógica interna. Isso
convida o leitor ao segundo eixo que atravessa os capítulos da obra.
A retórica do ódio aponta o autor, é a linguagem específica do bolsonarismo.
Ela se utiliza de diversas ferramentas discursivas próprias e que são trabalhadas ao
longo do livro. Essa linguagem, afirma o professor, é saturada de dramaticidade e
clichês anticomunistas. A finalidade é eliminar simbolicamente o outro, o diferente, o
divergente. Para isso, lança mão de sentenças abastecidas com palavrões, buscando
desqualificar completamente o adversário, que é sempre visto como inimigo. A
cristalização dessa retórica sequestra, para um ponto cego, tudo aquilo que não
confirme suas convicções que, geralmente, são radicalizadas. A ira da palavra se
dispõe à humilhação pública dos adversários e sua consequente desumanização.
A retórica do ódio adota um tom alarmista que, aliado ao eixo da guerra
cultural, é exitoso em amalgamar certa coesão social capaz de resistir a qualquer
aspecto da realidade que se encontre em rota de colisão. Olavo de Carvalho, autor de
O Dever de Insultar (2016), disseminou um estilo polemista manejando bem várias
ferramentas discursivas. João Cezar de Castro Rocha vai identificando e apresentando
essas ferramentas à medida que avançamos a leitura. A técnica da redundância que
lança mão de uma estratégia autoritária de confirmação do pensamento. A inversão
lógica onde a conclusão antecede e ancora as premissas. Trata-se de técnica que
permite que a afirmação principal seja aceita como axioma, sem espaço para a
reflexão. A eliminação dos mediadores a qual exige adesão completa, sem críticas. O
tom alfabetizador que tarja o contraditor como parte de O imbecil coletivo, que,
professoral e arrogantemente, reduz a termo O mínimo que você precisa saber para
não ser um idiota 2.

A cesta de ferramentas da retórica do ódio inclui, ainda, o insulto, como
argumento de autoridade, dirigido ao interlocutor dissonante. A hipérbole
descaracterizadora que estrangula o espaço reflexivo do leitor, controlando sua
interpretação. A autopromoção e o autoelogio. A idiotia erudita que adestra os
absurdos pela loquacidade da forma como se enuncia. Oximoro: uma figura que
manipula elementos repelentes, mas que podem asseverar adesão acrítica ao
raciocínio proposto. É a estimulação contraditória do “conservador revolucionário
antissistema”, do “rebelde que luta pela preservação da família e dos bons costumes”.
João Cezar anota que o manejo adequado dessas ferramentas pode fazer a conversão
da intolerância em capital eleitoral.
Se a obra parasse por aqui, já seria franca contribuição para a reflexão do Brasil
contemporâneo, mas foi além. O autor conclui que a guerra cultural bolsonarista leva
a um paradoxo. Ei-lo: O bolsonarismo se alimenta daquilo que vai destruir o governo
do presidente Bolsonaro, avalia o professor. E do que se trata esse alimento, que
também é veneno? A pulsão de morte, o ímpeto destrutivo. O desencaixe da
realidade, a miragem perturbadora dos inimigos imaginários (diferentes daqueles
típicos do jogo político), a negação dos dados e fatos objetivos, em síntese, a negação
da verdade factual não permite que o governo governe. Ao prescindir da matéria da
verdade factual, há dificuldade em articular com coerência, um programa de governo.
João Cezar faz um esforço de imersão na lógica interna do sistema de crenças
por ele identificado e lá percebe decorrências quase paranoides que turvam e resistem
à realidade. A isso o autor chama de dissonância cognitiva. Pessoas atingidas por essa
condição estariam propensas a certas atitudes mentais que visam evitar informações e
situações da realidade que resultem em desconforto ou que colidam com o sistema de
crenças internalizado.
Além do esforço analítico que encontramos no texto, há também um esforço
propositivo. No plano individual, o autor sugere substituir a retórica do ódio pela ética
do diálogo. Abandonar um padrão que se coloca no mundo segundo a lógica do “nós
contra eles”, e adotar uma perspectiva que posiciona “eles entre nós”. João Cezar de
Castro Rocha construiu uma redação que busca esse diálogo com o leitor, praticando
aquilo que sugeriu. O exercício é ver o outro não como inimigo que precisa ser
eliminado, mas como alguém com quem se pode aprender e com quem é preciso
dialogar. Idealista? Talvez. Necessário? Certamente. Essa pode ser a vulnerabilidade

do texto. Mas este é o estilo da redação, que, em diversas passagens, simula um
diálogo entre o autor e um possível (embora improvável) leitor imerso na lógica da
guerra cultural e caudatário da retórica do ódio.
No plano público, a proposição do professor é apontar a necessidade de retomar
o conceito de verdade factual, nos termos de Hanna Arendt, citada à altura da página
350:
“Mesmo que admitamos que cada geração tenha o direito de escrever a
sua própria história, admitimos nada mais além de ter ela o direito de
rearranjar os fatos de acordo com a sua própria perspectiva; não
admitimos o direito de tocar na própria matéria factual” (ROCHA, 2021.
P. 350. Grifos no original).
Então, nestes termos, a verdade não é aquilo que viraliza, a verdade é factual.
Há uma diferença entre fato e opinião e essa diferença é qualitativa e não baseada na
quantidade de compartilhamento entre os pares. João Cezar aponta a necessidade de
diferenciar claramente opinião e fato, uma vez que, sem uma dimensão atomicamente
objetiva, não há reconhecimento de espaço ou construção de debates públicos. Fatos
e opiniões são institutos diferentes, mas não são antagônicos. Fatos devem ser a
matéria sobre a qual se formatam opiniões diferentes. Dessa feita, o negacionismo e
revisionismo próprio da guerra cultural precisam ser entendidos e a obra é bem
sucedida nessa empresa.
O livro faz duas contribuições elogiáveis para o debate. A primeira diz respeito
à diversidade do trabalho de pesquisa. O autor se dispôs a garimpar leis e outros tipos
normativos, fontes audiovisuais e digitais, documentários, vídeos do YouTube,
podcasts, postagens do Facebook, Twitter, sites e blogues, livros, artigos acadêmicos,
ensaios, reportagens e artigos da imprensa. As referências, ao final da obra, fornecem
material rico e diversificado para aprofundamento. O autor também se utiliza, de
forma pulverizada, ao longo dos capítulos, de uma série de alusões a poemas, músicas
e outras produções culturais, o que enriquece o material e escapa do formalismo
acadêmico.
Mas, se há algo que particulariza a obra aqui resenhada é a sua proposta
metodológica: a etnografia textual. O esforço de evidenciar a realidade mais do que
combater essa ou aquela narrativa. Como compromisso contratado desde as páginas
iniciais: caracterizar, e não caricaturar. A etnografia, ferramenta metodológica
própria da antropologia, como ensina Clifford Geertz, materializa um esforço de

tornar inteligível a lógica do outro. Nessa busca, o etnógrafo lança mão de “recursos
conceituais não muito diferentes dos utilizados por historiadores e de recursos
literários não muito diferentes dos usados pelos romancistas” (GEERTZ, 2001. p. 80.
Grifos meus). Nosso autor é historiador e professor de literatura comparada. Não
poderia ter selecionado mais pertinente estratégia metodológica. Descrição, análise e
compreensão. Assim sendo, o etnógrafo textual, na tentativa de desvendar a
mentalidade do outro, precisa de amplitude de visão e disso, certamente, a obra de
João Cezar de Castro Rocha é testemunha.
Referências
CARVALHO, Olavo de. O dever de insultar. Campinas: Vide Editorial, 2016.
, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de
Janeiro: Record, 2017.
, O imbecil coletivo. Rio de Janeiro: Record, 2018.
GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001.
ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um
Brasil pós-político. 1ª Edição. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.

Fonte

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