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O sagrado, questão-chave para sair do clericalismo

O sagrado, questão-chave para sair do clericalismo

A socióloga Danièle Hervieu-Léger falou em 11 de dezembro de 2021 no quadro dos Rendezvous da CCBF (Conférence Catholique des Baptisé-e-s de France) sobre o tema “Rumo a uma nova governança da Igreja – Ir além do clericalismo”. Diretora dos estudos da EHESS (Ecole des hautes études en sciences sociales), dedica sua pesquisa às mudanças do religioso, em particular do aspecto religioso cristão nas sociedades ocidentais secularizadasAnne RenéBazin apresenta-nos os elementos essenciais da sua intervenção sobre a saída do clericalismo.



A reportagem é de Anne René-Bazin, publicada por Saint-Merry Hors-les-murs e reproduzida por Fine Settimana, 20-01-2022. A tradução é de Luíza Rabolini.



O relatório da CIASE enfatizou a “excessiva sacralidade” atribuída à figura do padre e a apresenta como um sistema que possibilitou a instauração de uma cultura do abuso dentro da Igreja romana. Como socióloga, trato aqui de fatos sociais: a sacralidade do padre não provém do céu, é uma construção histórica que se impôs ao longo dos séculos.

O sistema romano é um dispositivo institucional baseado em três pilares

O primeiro é o monopólio da verdade, insustentável em um mundo pluralizado. O segundo é uma visão territorializada da missão, consistindo em sua extensão física “até os confins do mundo”, uma visão imperial superada pela modernidade. O terceiro pilar é a construção hierárquica e sacral da autoridade sacerdotal (presbiteral), último muro de sustentação do sistema romano: o padre dispensador exclusivo dos bens da salvação diante de um povo completamente desprovido de poder.

Não se sairá disso tentando trazer a sacralidade do padre a uma proporção justa: a única saída é acabar com a sacralidade.

Vamos relembrar três momentos principais na construção dessa sacralidade.

Primeiro momento: a reforma gregoriana do século XI

A reforma implementada por Gregório VII entre 1073 e 1085 impõe a obrigação do celibato a todos os padres a partir do subdiaconado. Gregório VII, que era monge, alinha assim a condição do padre com a do monge. O padre passa a estar assim do lado do que podemos chamar de “virtuosismo religioso”: realizar uma totalização religiosa de sua própria vida. Portanto, os padres se colocam à distância dos fiéis comuns. Esta é precisamente a chave da sacralização: o sagrado é o separado. É a construção de uma relação radicalmente assimétrica entre o padre e os fiéis.

A primeira consequência é que “o chamado” muda de sentido – era o chamado de uma comunidade para pessoas que se encarregam da regulação da vida coletiva, enquanto agora o padre se torna um eleito, escolhido pelo próprio Deus, independentemente da tarefa pastoral. O padre continua a ser “eleito” mesmo nos atos mais ordinários da vida pessoal; participa do poder divino.

Ao mesmo tempo, a celebração eucarística passa da anamnese da Última Ceia à celebração do Sacrifício Eucarístico, de uma forma cada vez mais teorizada pela teologia. Essa sacralidade do padre também terá seus efeitos na sacralização progressiva do edifício igreja.

Segundo momento: o Concílio de Trento (1545-1563)

Ocorre no contexto de uma grande decaída da Igreja Romana em relação à reforma protestante na Europa. Os três elementos fundamentais deste momento de reforma são:

– a solenização teológica na constituição sobre a transubstanciação da presença real, ponto central da separação da reforma protestante

– a sistematização das paróquias organizadas em torno de um pároco, padre depositário exclusivo de autoridade religiosa, em total assimetria com os fiéis

– as bases de organização de um clero formado com a criação de um seminário em cada diocese: o padre não é apenas um homem de poder graças ao seu papel sagrado, mas é também um homem cujo conhecimento completa sua figura de autoridade.

A figura do padre como homem do sagrado impõe-se massivamente a toda a Igreja, com a missão de adquirir territórios para a Igreja, pois a evangelização consistia principalmente em trazer toda a população para a Casa de Deus.

Terceiro momento: século XIX

Igreja, confrontada com o advento da liberdade política no rescaldo da Revolução Francesa, encontra-se numa situação de questionamento radical da sua posição no mundo social e político.

Há um primeiro tempo, no início do século: a Restauração, que corresponde ao momento em que o sonho da reconquista torna realmente possível, senão provável, que a ordem nascida da Revolução Francesa seja reversível. É uma fase de numerosas vocações, de missões paroquiais, um momento de triunfo para o ultramontanismo e de reabilitação da figura do papa. A liturgia é uma teatralização extremamente forte daquele padre no alter Christus, e durante todo o século, a figura do santo padre é apresentada para a reparação dos crimes da Revolução, de um mundo que quer viver sem Deus, portanto sem Igreja – todos conhecemos a extraordinária fortuna da figura do Cura d’Ars.

Segundo momento. Na segunda metade do século em que a República se consolida, a Igreja pensa em fechamento da cidadela-Igreja diante de um mundo secular que rejeita. Pela força da situação, ela se dobra na esfera privada, uma dobra que caracteriza a modernidade. A família torna-se por excelência o terreno em que a Igreja tentará manter a sua influência no mundo social. É o momento em que explode o “familismo católico” – enquanto se impõe o modelo da família burguesa como construção jurídica e social.

A partir desse momento, o controle da moral se tornará o principal terreno em que a Igreja exercerá sua influência, com uma obsessão natalista, visando não apenas não intervir na fecundidade, mas também produzir padres. Extraordinário paradoxo, em que os padres se tornam eunucos para o Reino e ao mesmo tempo controladores da vida sexual das comunidades. O principal instrumento desse controle é a confissão: os padres são canonicamente obrigados a fazer perguntas sobre as práticas das mulheres e dos casais.

Assim, há uma concatenação de elementos: a separação – com a valorização do padre operador do sacrifício de Cristo – e o convite a tornar-se supervisor da vida sexual dos fiéis.

E no século XXI

O que se observa hoje está muito longe daquele mundo antigo: dissolução do tecido paroquial, queda livre da demografia clerical, assunção de autonomia dos fiéis, abandono das indicações eclesiais como no caso da contracepção.

Mas nenhuma dessas transformações da sociedade – no final da Primeira Guerra Mundial, depois na Segunda Guerra Mundial e posteriormente nos anos do milagre econômico – provocou na instituição uma reelaboração das modalidades da sacralidade do padre, homem separado do comum, o único a dispor uma linha direta com o divino. Ao contrário, vive-se uma fase de reafirmação contracultural daquelas práticas.

A partir do século XI, o celibato contribui para inscrever a sacralidade dos atos que realiza no corpo do padre, sejam eles atos sagrados ou não. Essa sacralidade pode levá-lo a se considerar não sujeito às regras de não agressão do corpo alheio. Disso derivam os excessos delirantes por parte dos fundadores das “novas comunidades”.

Para superar as patologias decorrentes dessa sacralidade excessiva, uma das respostas mais imediatas é: e se fossem ordenados homens casados? Certamente, uma normalidade da vida coletiva reduziria a pressão sacra. Provavelmente, porém, hoje o primeiro resultado seria ter um clero em duas velocidades, ou seja, distinguir entre os verdadeiros padres e os outros…

Mas seria apenas a metade do percurso. Por quê? Porque o inverso exato da sacralização do padre celibatário é que seu celibato está associado à pureza ritual: a separação, típica do sagrado, entre o puro e o impuro. E aí pode se ver o vínculo indissociável com a exclusão absoluta das mulheres, que ameaçam a pureza do padre como tentadoras (exceto as figuras da virgem e da mãe), mas mais fundamentalmente o corpo das mulheres (regras, estar grávida) seria impróprio para a sacralidade.

Acabar com os excessos de sacralidade que pesam sobre a pessoa do padre sem abordar a questão das mulheres é uma missão impossível – ainda que se possa mostrar que o retorno do sagrado contraria a ruptura evangélica. Não há outra maneira de sair do sistema sacro a não ser conferindo o presbiterado às mulheres como aos homens, não para também fazer entrar as mulheres no âmbito do sagrado, mas para tirar definitivamente os homens da própria possibilidade de sacralização.


(A palestra de Danièle Hervieu-Léger – em francês – pode ser ouvida no YouTube. No site baptisé.fr, clicar em “La voix des baptisés” para acompanhar o RDV CCBF4 / Session 02 – Aller au-delà du cléricalisme – ou clicar diretamente aqui.)

Livros de Danièle Hervieu-Léger:

  • – Catholicisme, la fin d’un monde, Bayard 2003
  • – Le temps des moines, clôture et hospitalité, PUF 2017
  • – Religion, utopie et mémoire – Entretien avec Mr Fabre, 2021 EHESS

Fonte

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