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O episódio do Flow nos ensina que comunismo e nazismo não são iguais

O episódio do Flow nos ensina que comunismo e nazismo não são iguais

POR

HUGO ALBUQUERQUE

Normalizar doutrinas fascistas não é uma exclusividade do Flow podcast. Na década 1930, o Estadão saudava Hitler e a editora Globo publicava Mein Kampf. Hoje, a Folha promove os devaneios da extrema direita e os liberais tentam equiparar nazismo ao comunismo para se esconderem atrás de uma falsa simetria perigosa – que fortalece a armadilha bolsonarista.
Igor, Taba Amaral, Monark e Kim Kataguri abraçados nos estúdios do Flow podcast.

Quatro rostos felizes em uma foto de segunda-feira à noite. Era o ponto final de mais um episódio do Flow podcast, até então o segundo mais importante de um segmento extremamente popular no Brasil. Lá estavam os apresentadores, Monark e Igor, e os convidados da vez, os deputados federais Kim Kataguiri, do Podemos (ex-Dem), e Tabata Amaral, do PSB (ex-PDT), respectivamente, a nova direita “antibolsonaro” e a esquerda “moderna” no dizer do capital. A foto escondia mais um episódio macabro de apologia ao nazismo na mídia brasileira. 

Na live de quatro horas, uma dobradinha de Monark com Kim Kataguiri se tornou explosiva: a conclusão foi de que seria legítimo fundar um partido nazista e expressar antissemitismo no Brasil pela “liberdade de expressão” — e que também seria errado a Alemanha ter criminalizado a prática. Antes, eles debatiam sobre a equiparação de nazismo e comunismo. 

A conversa foi interrompida por Tabata Amaral em protesto contra o consenso dos dois, mas nem ela se levantou da mesa, nem se acanhou em tirar a animada foto, regada a hidromel, com todos os participantes ao final do programa. Disso, explodiu o escândalo nas redes sociais e na grande mídia que levaram à desgraça de Monark, um movimento pela cassação de Kim e fotos sendo apagadas das redes.

Parece um sintoma deste nosso tempo, mas não é. A grande mídia brasileira, desde os anos 1930 toma o lado do fascismo de variadas formas.  O Brasil não vê apenas, em sua mídia de massa e redes sociais, a repetição da tragédia que resultou em 2018, mas aquela que já estava presente nos anos 1930, para não ir longe.

Jornais e meios de comunicação brasileiros, sem muito remorso ou dúvida, anunciavam escravos no século XIX, assim como defendiam repressão violenta a greves antes disso. Mas uma vez que surgiu o nazifascismo propriamente dito, nossa mídia apoiou sem dúvidas: o Estadão, que considerou a disputa entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro “uma escolha difícil” em 2018, não tinha dúvidas em apoiar Adolf Hitler nos anos 1930. A editora Globo publicava o Mein Kampf (Minha luta) de Hitler, cobrindo a obra de elogios.

Como certa vez disse Ailton Krenak à Jacobin Brasil, não raro a história se repete como tragédia. Certamente, ele tem razão. Mas existe uma operação ideológica que precisa ser investigada, e combatida, e que atravessa esse episódio: como a equiparação entre comunismo e nazismo é, do começo ao fim, uma armadilha que sempre visou normalizar a extrema-direita novamente.

Uma defesa aberta, franca e expressa do nazismo

Orepúdio ao episódio seguiu ao longo do dia seguinte, com Monark destroçado junto à opinião pública e ao final alegando “estar muito bêbado” — o que não evitaria sua, voluntária, saída do podcast do qual é dono, dirige, produz e participa desde o início. A decisão não foi à toa, alguns patrocinadores já debandaram do programa como já tinha acontecido, em menor grau, em outubro de 2021 quando Monark disse que “ter uma opinião racista não é crime”.

Comentaristas de direita como Joel Pinheiro da Fonseca, conselheiro editorial da Folha, surgiram com a falsa equiparação entre comunismo e nazismo, mas embora se dissesse contra a legalização de um partido nazista, era favor de “sua expressão”.

Por sinal, o mesmo Pinheiro da Fonseca, que já defendeu o comércio de órgãos humanos, esteve recentemente envolvido na defesa de Antônio Risério, um ex-esquerdista, que defendeu na Folha um ataque ao movimento negro sob os auspícios de que ele praticaria “racismo reverso” — e em certos casos, ironicamente acusando o movimento negro americano de “antissemita” por supostos casos que ele narra (como se nos Estados Unidos, negros e judeus não fossem perseguidos). 

A conversa começou e terminou com a operação ideológica pela qual  comunismo e nazismo seriam “iguais”, logo, “embora condenáveis” a liberdade de expressar ambos deveria ser garantida. E é aí que mora o perigo.

Uma falsa simetria, a armadilha do nosso tempo

Com todos os seus muitos defeitos, o mundo contemporâneo foi forjado por uma aliança entre comunistas, liberais e conservadores contra o nazifascismo. Isso não quer dizer que Winston Churchill fosse um santo democrata, e não um brutal senhor colonial, que possamos ignorar que Franklin Roosevelt governou sem mexer na política de segregação racial, nem que Stalin fosse ele mesmo envolvido em confrontos épicos no interior do movimento comunista.

 O fato é que Stalin, Roosevelt e Churchill se uniram contra o nazismo, quando talvez fosse conveniente para todos eles se acomodarem com Hitler, como fizeram os colaboracionistas franceses. Bem ou mal, eles lutaram e venceram e graças a isso a humanidade está aqui. Mas algo mudou no neoliberalismo tardio. Como Slavoj Zizek observa bem já há algum tempo, esse consenso foi colocado em causa. Nem a Guerra Fria, com a disputa entre comunistas e ocidentais tinha sido capaz de fazer isso. Mas agora, sobretudo após a crise de 2008, e um pouco antes, surgiu uma nova narrativa: a de que comunistas e nazistas, a despeito de terem lutado até o fim no campo de batalha na Segunda Guerra, seriam as duas faces da mesma moeda.

Movimentos como a resolução da Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa equiparando “stalinismo” ao nazismo, ainda em 2009, antecedem isso — e ecoam as recentes decisões do Parlamento Europeu sobre equiparação de comunismo e nazismo caminham no mesmo sentido.

Esse movimento, iniciado com força nos anos 2000, tem um histórico, é verdade, na Guerra Fria, o flácido conceito de totalitarismo em Hannah Arendt, que se voltava para o bloco socialista, embora não raro fosse incrivelmente cínica com o movimento negro americano na luta pelos direitos civis — e ignorasse as ditaduras apoiadas pelo ocidente “democrático”. Mas trazer isso como grande narrativa, de fato, é obra dos neoliberais tardios, depois da desilusão com o Fim da História, quando neoliberais prometiam um paraíso de livre mercado e democracia, quando só entregaram desemprego, concentração de renda e angústia social disseminada.

Essa simetria se trata de uma operação performática, onde não se quer dizer o literal, que faria o leitor menos atento supor um elogio ao liberalismo e a condenação de tudo que não seja ele. Ao supor que nazismo e comunismo são iguais, só se pode concluir que ou o nazismo, e outras formas de extrema-direita, devem ser tolerados ou considerados no debate político ou, ao contrário, que devemos tirar o “comunismo” do debate público — e por “comunismo” entenda-se aí uma ampla gama de movimentos e partidos de esquerda, ao gosto do crítico do momento. 

O grande problema do anticomunismo é que “comunismo”, como sabemos, sempre pode ser um conceito muito amplo. Vide o Brasil da ditadura militar. Zizek, apesar de seus erros e polêmicas tolas, estava certo quando lançou a luz para esse problema. O efeito dessa equiparação e do fim de um acordo civilizacional tácito, é que nos últimos vinte anos, mais partidos e movimentos de extrema-direita adentram ao jogo político, fazendo o que o grande capital muitas vezes precisa para se salvar, enquanto a esquerda tem sofrido diversas formas de perseguição.

Exemplos não faltam, mas no Brasil de 2018, diante da possibilidade de vitória do Partido dos Trabalhadores (PT), mesmo depois da prisão de Lula ou do impeachment inconstitucional de Dilma Rousseff, vimos liberais simplesmente apoiando ou se omitindo contra Bolsonaro — que aparecia como mal necessário contra uma ideia alargada de “comunismo”.

Uma vez como tragédia, depois também

Oideário de um podcast como Flow é semelhante ao ecossistema que ajudou a derrubada de Dilma. Não à toa, nesse fatídico episódio, estavam um representante do o principal grupo que atuou no golpe de 2016, o Movimento Brasil Livre (MBL), do agora deputado Kim Kataguiri e Tabata Amaral, conhecida por suas falas em defesa do privatismo radical, embora estivesse antes em um partido trabalhista, o PDT, e hoje em um partido socialista, o PSB, que cogita apoiar Lula — ainda que ela mesma declare pouco ânimo em apoiar o ex-presidente petista. Apresentada como “de esquerda”, a deputada coleciona controvérsias e polêmicas, principalmente com seus votos favoráveis às reformas neoliberais dos últimos anos.

Esse ideário, que último caso une Kim e Tabata, como suas fictícias alas direita e esquerda une a defesa abstrata de um ultracaptalismo, como se isso fosse trazer prosperidade e riqueza, construindo uma nova subjetividade pela qual trabalhadores começavam a se ver como empreendedores, acelerando o processo que, na realidade, liquefez seus direitos e sua renda.

Kim, por seu turno, defendeu em vários momentos que PT e o MST fossem jogados na ilegalidade, o que torna seu argumento favorável à liberdade de expressão “radical”, mais falso e falacioso.

O resultado prático foi um fracasso para os envolvidos. Com Flow perdendo patrocinadores, surge o (auto)afastamento de Monark, mas também pedidos de cassação de Kim Kataguiri e, por fim, Tabata apagou a famosa foto do programa. Mas enquanto tudo isso acontecia, a esquerda sofria ataques pela suposta equiparação entre nazismo e comunismo, pronta para acessar o botão de autofobia, e do outro lado um espantalho sobre “censura” era erguido.

Se é para falarmos de liberdade de imprensa e expressão, temos de entender que, em um primeiro momento, o que por si só já define os conteúdos que podem ou não ser produzidos é a dura tarefa de um meio conseguir viabilidade econômica. 

Depois, que entre os meios existentes e que conseguem sobreviver, jornalistas correm sérios riscos no Brasil quando investigam autoridades e organizações criminosas com o apoio do poder político e econômico. Não são podcasters em suas — nada inocentes — trollagens que estão em risco em seus confortáveis estúdios, mas jornalistas investigativos no interior do Brasil.

Não houve censura alguma, mas pode haver, embora seja remoto, responsabilização pela consequência do que é dito — o que é reconhecido em qualquer parte, do contrário não haveriam crimes contra a honra ou indenizações por dano moral. Contrariar isso, é negar que discursos podem gerar efeitos práticos nocivos à sociedade, grupos ou mesmo pessoas. E não é da esquerda que isso vem.

No mais, quando a própria esquerda cai nesse tipo de argumento, ela ignora que a perseguição que sofre desde sempre, em matéria de expressão ou mesmo supressão de direitos políticos de suas organizações e lideranças, não têm relação com regras universais e igualmente válidas para todos os grupos políticos. Ou em um cenário em que se discuta a responsabilização da direita, isso terá impacto sobre a esquerda. O sistema brasileiro jamais precisou disso para perseguir a esquerda.

As ideias de Hitler, ainda nos anos 1930, já eram bem conhecidas pelo público brasileiro, seu Minha luta e foram publicadas na íntegra pela editora Globo — que na época não pertencia à família Marinho, mas a uma livraria homônima de Porto Alegre, embora ela viria a ser adquirida nos anos 1980 pelas organizações Globo que conhecemos. Essa aparente “liberdade” naquele período não mudava o fato de que a imprensa operária era perseguida, censurada e esmagada.

Da mesma forma, o que levou Monark a sair, foram as regras implacáveis do mercado selvagem que ele próprio defende. Diante da perda de patrocinadores, acabou-se qualquer argumento e o empresário Monark “demitiu” o apresentador Monark da bancada do Flow. Ainda é pouco.  Como é pouco para o deputado Kim, apoiador da candidatura de Sérgio Moro.

Felizmente, o antissemitismo é devidamente combatido e gera consequências nos seus perpetradores, mas não podemos nos esquecer que ao reivindicar o nazismo, Monark e Kim ofenderam também a memória de comunistas, socialistas, democratas, ciganos e LGBTQIA+ que foram mortos pelos nazistas na Alemanha e no mundo. E que ataques e deslegitimações contra negros e indígenas brasileiros estão sendo feitas em massa, a despeito das violências — inclusive estatais — que esses setores enfrentam no Brasil.

Agora, o bolsonarismo já busca se aproveitar rapidamente do fato, sacrificando o adversário interno Kim e, vejam só, com uma equiparação entre comunismo e nazismo, seja no discurso de Bolsonaro ou na ação de seu filho, e deputado, Eduardo. É a velha operação ainda em curso e sua armadilha, que diante de um ato nazista, busca criminalizar comunistas como cortina de fumaça, mas também como projeto de poder — justamente em um governo de extrema-direita que permite o crescimento de organizações neonazistas e as estimula com seus recorrentes apitos de cachorro.

Sobre os autores

HUGO ALBUQUERQUE

é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

Fonte

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