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Identitários são os outros

Identitários são os outros
POR
DOUGLAS RODRIGUES BARROS E CIAN BARBOSA
É possível ver o identitarismo como produto da lógica cultural do capitalismo em seu acelerado declínio econômico, político e social. Mas o debate sobre identidade não pode ficar na mão dos que acham que identitário só pode ser “o outro”.

Zygmunt Bauman, filósofo da chamada pós-modernidade, ao mesmo tempo polonês e judeu, em uma entrevista concedida a Benedetto Vecchi (publicada em 2005 no Brasil sob o título “Identidade”) narra uma curiosidade no mínimo intrigante sobre sua expulsão da Polônia. Agraciado com o título de doutor honoris causa na Universidade Charles em Praga, pediram-lhe que escolhesse qual hino tocar durante a cerimônia que lhe entregaria o título: se o da Grã-Bretanha, país que o acolheu como refugiado e lhe concedeu cidadania, ou o da Polônia, país em que nasceu e lutou para defender na Segunda Guerra Mundial, mas do qual foi banido e, por questões políticas, lhe tiraram a cátedra. A angústia da escolha se pôs. Bauman relata que sabiamente recorreu a opinião de sua companheira, Janina Bauman, judia e escritora do consagrado livro Dream of Belonging (O sonho de pertencer), que lhe sugeriu o hino da Europa. O episódio funciona bem para ilustrar o paradoxo da auto-identificação, que serve para pensar a própria identidade. 

Outro Sigmund, o Freud, nunca se considerou um judeu. Encarando a si próprio mais como um herdeiro legítimo da laicidade da Aufklärung (Iluminismo), olhava para todos os ritos religiosos, como algo da menoridade, característica da falta de autonomia individual. Quando a política racial dos nazistas, entretanto, ganhou forma e corpo em Viena, fez questão de afirmar sua judaicidade. Passou a usar o chapéu igual ao do pai, trocou cartas com Albert Einstein a respeito da guerra e no círculo mais próximo, composto em sua maioria por judeus, começou a enfatizar a importância de se reconhecer judeu com altivez: “Se nos gritam judeus nas ruas… Judeus somos e com orgulho!”

O que os dois exemplos nos mostram é que não se pode falar de “identitarismo” sem pensar os significados da identidade na modernidade e o lugar que ela ocupa hoje. Recentemente vimos retornar ao debate público de maneira atravessada a categoria do identitarismo. Como se tornou costume, a polêmica é utilizada para desmerecer setores de movimentos sociais. O alvo comum é normalmente o movimento negro, mas também se aplica ao movimento feminista e LGBTQI+. 

Queremos disputar o sentido da categoria de identidade para afastá-la da concepção vulgar, que está na base das confusões que alimentam debates tão acalorados quanto superficiais. Propomos uma perspectiva crítica da identidade, que não a concebe de forma ingênua nem descartável, mas se esforça em compreender sua dimensão enquanto parte necessária da estruturação subjetiva – da qual nenhuma prática política moderna é capaz de prescindir. 

Labirintos da identidade

Afinal, o que é uma identidade? Uma identidade pode ser vista pelo prisma estritamente subjetivo (se pensada como organização psíquica que possibilita o indivíduo adentrar o mundo simbólico, e se tornar sociável) ou do ponto de vista da cultura (se pensada nas formas de identificação social organizada pela vida comum que dispõe os lugares do indivíduo, seu horizonte e visão de mundo compartilhado). 

A identidade é uma necessidade subjetiva. Por ela, conseguimos minimamente afirmar o que acreditamos ser a partir das identificações que traçamos no nosso mundo. O paradoxo é que a busca pela identidade só é possível através da sua perda. Essa perda é impulsionada pelo processo de contínua mudança da própria experiência individual, ela é assim aberta e implicada na dinâmica da identificação com o mundo e com o Outro. Sou apenas em devir

Na formação social a identidade funciona como suporte precário de significados que carregamos para traduzir não só nossa experiência como o sentido dessa experiência. A identidade subjetiva consolida, portanto, nossa entrada na civilização ao passo que a identidade cultural vai redefinindo seu curso e sentido. Ambas só podem ser entendidas como construções sócio-históricas. E, assim, pela identidade organizamos, para lembrar Stuart Hall, laços sociais baseados no pertencimento às culturas linguísticas, religiosas, racializadas e, sobretudo, nacionais.

Voltemos ao exemplo de Bauman, que além de judeu podia ser visto tanto como polonês, quanto como britânico. Todas essas identidades poderiam ser atribuídas a Bauman, mas nenhuma delas poderiam defini-lo essencialmente: ser-Bauman é poder atravessá-las. A identidade é sempre não-inteira, sempre uma passagem definida pela relação com o outro e pelo espaço em que se dá essa relação através da identificação. O sujeito é, portanto, um suporte precário das possíveis identificações que organizam uma identidade provisória. 

A identidade daquele foi identitarizado

Pensar a identidade como fechada, sem a relação e sem a produção social que lhe são necessárias, é um delírio perigoso – em muitos casos históricos, levou a desastres. Esse fenômeno poderia, sim, ser chamado de “identitarismo”, que em nenhuma hipótese se confunde com a identidade. A modernidade construiu lugares imaginários para grupos humanos inteiros através da racialização da vida social durante o período escravista do capitalismo, que durou mais de 400 anos. Essa racialização nega a humanidade do indivíduo racializado, impede-o de tornar-se sujeito.

É curioso, mas de nenhum modo surpreendente, que se acuse de identitarismo as organizações antirracistas negras sem nada dizer sobre os processos de construção da identidade racializada. Antes de uma acusação desta se deveria evidenciar que a racialização constrói um imaginário que efetiva os marcadores raciais. Estes podem ser epidérmicos, linguísticos ou religiosos. Uma vez naturalizada a noção de raça, temos toda uma linguagem que separa grupos humanos e assinala os valores morais e estéticos desses grupos. No caso negro, como disse Isildinha Nogueira em A cor do inconsciente: “à medida que o negro se depara com o esfacelamento de sua identidade negra, ele se vê obrigado a internalizar um ideal de ego branco.”

A busca pela identidade no espaço social racializado se torna assim problemática para aquele que sofre a racialização porque a noção de raça identitariza o racializado; busca resumir todas sua subjetividade desconsiderando violentamente a experiência que esse indivíduo faz no mundo e com o outro. Ao efetivar um lugar forçosamente identificatório para esse indivíduo, a racialização impõe uma organização subjetiva que naturaliza essa diferença racial como se fosse algo essencial: “o negro é o negro, age assim por ser negro!” 

Entretanto, se, por um lado, há a imposição da identidade pelo colonizador, por outro, como diz Achille Mbembe, há a declaração de identidade desse que é reduzido à uma identidade fechada. Essa declaração de identidade subverte os sentidos aplicados pelo colonizador ao racializado. Paul Gilroy no seminal Atlântico negro demonstra essa equação em todo seu alcance. A declaração de identidade busca repensar as experiências do desenrolar da vida moderna investigando a história pelo ponto de vista daquele que foi racializado. 

Por isso, a declaração de identidade é a maneira pela qual o racializado busca re-existir. Esse ato se torna insurgente quando desafia a própria concepção colonial que atribuiu a identidade do racializado. Não apenas se investiga a história a contrapelo como ainda questiona a visão de mundo racializada organizada pelo colonialismo. Isso significa compreender que a identidade é aberta e disputável. Sua insurgência se efetiva justamente por recusar o lugar que lhe foi dado na ordem. Entender-se enquanto indivíduo racializado é entender-se enquanto resultado de um processo sócio-histórico. 

Voltamos a Freud: o paradoxo é que quando ele pensa-se a si próprio como judeu, recusa justamente a noção de identidade judia inventada pelo anti-semitismo moderno. Assumir a sua identidade, nesse contexto de brutal violência racista, é dar um recado que James Baldwin deu anos mais tarde: “não sou seu negro!” É tornar a identidade insurgente por sua abertura que visa não se identificar com o que o racista diz, mas pelo excesso daquilo que não é. Em todo caso, o entendimento da identidade racializada é tido como um processo de conhecimento de si que visa destituir os lugares e definições prévias fornecidas pelo colonizador.

As armadilhas do identitarismo

Éjustamente essa possibilidade de insurgência, possibilidade de ser posta como singularidade não abarcável pela forma de reprodução da vida atual, que tem sido com frequência neutralizada atualmente.  O identitarismo é uma forma de ideologia. Para entendê-lo é necessário abdicar da compreensão de ideologia como mera “falsa consciência” da realidade. A famosa frase de Karl Marx, “disso eles não sabem, mas o fazem”, deve ser compreendida como uma fórmula para a própria ideologia, mas não de forma que situe a ilusão ao lado do saber senão ao lado do fazer: a ideologia não é algo que existe “na mente” do intelectual, mas algo que se materializa nas práticas cotidianas. 

Mas onde a identidade e o identitarismo entram aqui? 

A mobilização das identidades, a partir da geração de acúmulo de capitais propiciado pelo mercantilismo e exploração das colônias, foi crucial para a formação da principal instituição política contemporânea: o Estado. A produção do Estado-nação enquanto forma política institucional demandou uma profunda reorganização na economia simbólica. Isso implicou a fundação de uma forma que organizaria a relação dos indivíduos com o poder estatal centralizado: a identidade nacional. O mundo que passa a ser criado pelo mercantilismo – forma larvar do capitalismo moderno –  precisa ser agrupado a partir de uma unificação política que demanda a organização de uma identidade “guarda-chuva”, ancorada na língua, religião, padrões estéticos e etc.. Trata-se do Estado multirracial.

A identidade nacional, com seu pressuposto na modernização capitalista, entra em cena para suplantar e subsumir as múltiplas identidades, facilitando com isso o modo de gestão do capital através da organização de fronteiras e espaços geográficos a fim de consolidar uma economia política baseada no dinheiro. 

Com o desenvolvimento das condições de possibilidade do capital e sua tautologia – o fim em si da valorização, o sujeito automático do valor que se valoriza – se operou a construção do Estado-nação. O controle dos humanos e a produção material constituem esta condição que tem a finalidade de reproduzir o capital. Esta reprodução organiza a abstração do valor, encarnada nos corpos reais e legitimada pelo aparato jurídico estatal.

 É da necessidade de um espaço nacional imaginariamente consolidado, por meio de uma identidade que subsume todas as demais, por exemplo, que advém o mito racialista da democracia racial brasileira: a ideia de que se atingiu a síntese das três raças (negra, indígena e europeia) e que o processo de modernização iria suplantar todas as diferenças. Ocorre que a estrutura das particularidades nacionais estava também encadeada na estrutura do desenvolvimento capitalista global, articulada com o sistema colonialista. 

Há um lapso temporal que organiza a diferença e a desigualdade combinada no capitalismo mundializado. Essa desigualdade que, mais do que material ocorria no próprio tempo histórico, produziu a ideia do “desenvolvimento” progressista. Cabiam as nações subdesenvolvidas alcançarem aquelas que se desenvolveram. Cabiam aos “semi-humanos” racializados se humanizarem com a entrada na modernização. 

Há, portanto, uma intersecção entre capital, Estado e nação na produção subjetiva e objetiva da história. São as três instâncias que pilotam a assim chamada acumulação primitiva: o processo de expropriação, dominação violenta e espoliação – que cria a separação entre classe proprietária e classe proletária, e mostra toda sua brutalidade nas colônias. Daí se originam as condições (geo)políticas modernas. O resultado da violência colonial é simultaneamente a condição de possibilidade da modernização. A produção ideológica universal implicada nesse processo foi, necessariamente, a produção de uma universalidade ideológica, logo, falsa e abstrata. 

A identidade nacional foi um construto organizado pela necessidade de gestão do capitalismo. A repressão social e a exploração, que lhe são inerentes, organizaram também a obliteração de identidades encobertas pelo manto da nação. Essa ideia de um falso “nós” serviu para a manutenção de relações baseadas no poder do capital. Ocorre, porém, que sob o manto da nação, o racialismo se processava, e organizava as formas de exploração do capital, inclusive adaptando o racialismo ao mercado de trabalho e à estrutura urbana da cidade. O lugar de negro e o lugar de branco se colocariam de maneira central no desenvolvimento da vida e cidade modernas.

Essa operação de submeter as diferenças à identidade nacional, entretanto, é desestabilizada pelas revoluções técnicas permanentes no interior do capitalismo sob a pressão para manutenção da taxa de lucro. O crescimento da produtividade do trabalho e a internacionalização de mercados globais interconectados, que organizariam o chamado fenômeno da globalização, passam a exceder o Estado-nação como leviatã capaz de organizar a vida política.

Os Estados passam a ser capturados e tornam-se reféns da economia de mercado ao passo que a nação se torna um apêndice no elo da cadeia global de financeirização econômica. A transnacionalização de mercados impõe as pautas da política econômica que, sobretudo, precisam garantir a viabilidade do lucro. Enfraquecida a necessidade de uma identidade nacional regulatória, a percepção do mundo tende a se reduzir ao indivíduo singular, à empresa do Eu, ao mesmo tempo em que o véu de Maya da nação é rompido. O próprio tempo é atomizado num eterno presente, e se rompe com a ideia de futuro. No entanto, a decomposição da noção de uma sólida nação, não levou à liberdade social, mas aos horrores da desintegração social. O Estado multirracial é substituído pelo Estado identitário, cada vez mais étnico, que se coloca contra os imigrantes.

Deriva-se daí a produção das condições materiais de um processo de reconhecimento identitário fechado, onde, em última análise, a diferença constitutiva expelida irá assumir a forma de não reconhecimento do outro. Nossa hipótese é que foi o ocaso da modernização, seguido pela submissão do Estado-nacional, anteriormente cumpridor dos ritos de manutenção e estabilidade social, que provocou a ascensão da identidade como recurso absoluto, um fim em si mesmo. 

O identitarismo deve ser criticado justamente como uma forma de submeter as identidades insurgentes ao processo de reestruturação produtiva do capitalismo. A identidade não só se torna fechada como também se torna um investimento curricular que promove a possibilidade de rentabilidade individual no mercado (de trabalho e das redes, ou na capitalização do próprio indivíduo-marca) e a inclusão acrítica do porta-vozes da identidade nos espaços de visibilidade dominantes que reproduzem a lógica da exclusão. Substituindo a política pela gestão, trata-se agora de constituir lugares na visibilidade. A questão não é mais desestruturar os espaços de poder, mas torná-los pórticos da diversidade colaboracionista. A eleição de Biden ganha total sentido aqui.

O identitarismo se torna um sintoma presente no próprio tecido social, um sintoma que se atualiza na dinâmica excludente do capitalismo tardio. O paradigma desse capitalismo desdobrado passa então da exploração para o da exclusão. A precária resposta: a tentativa de inclusão como espaço rentável curricular baseado na identidade. No ocaso das seguridades estatais, a identidade acaba tornando-se fonte de recurso para se proteger da devastação causada pela espoliação contínua do capital. O horizonte identitário é a máxima tatcherista de que “não há alternativas”: a única coisa que se pode fazer é buscar a sobrevivência (individual) na implacável e incessante competição de um mercado generalizado. O outro se torna um concorrente imediato na capitalização da identidade. 

Ir à raiz

Oidentitarismo é, de fato, um fenômeno perigoso num horizonte regressivo de sociabilidade. É curioso notar, entretanto, como alguns “críticos conservadores” do identitarismo raramente enfatizam como na França atual grupos neofascistas encontram na semântica identitária uma nova forma de pregarem seu supremacismo branco, como é o caso da Génération Identitaire (Geração Identitária). Nada falam sobre Movimento Identitário da Áustria, que é suspeito de ter relações com o atentado terrorista supremacista contra mesquitas na Nova Zelândia em março de 2019, deixando 50 mortos e mais dezenas de feridos. Reconhecer isso seria impossível para quem quer vender o argumento de que todos têm as mesmas condições materiais para realizarem suas “fantasias identitárias”. É nesse ponto em que se cai no terreno estritamente ideológico, ao acreditar que o identitário só pode ser “o outro”.

E se é possível dizer que o “identitarismo” seja mesmo um problema, a ingenuidade em pensá-lo como uma suposta passagem da “busca pela igualdade” para a “política da afirmação da diferença” mais atrapalha que ajuda. Faz parte do cancioneiro liberal mal entoado pela esquerda de boa-fé. Seus perigos não são poucos: primeiro, compreende-se a “busca pela igualdade” como afirmação de uma identidade não relacional, que nada partilha com o outro; segundo, perde-se de vista que o identitarismo é uma posição que nega o próprio outro, ou seja, também a própria diferença que o constitui; terceiro, abre-se pretexto para que se busque o espaço de visibilidade sem colocar em xeque seu processo de exclusão, perdendo-se assim a própria potência política; por último, parte-se de uma compreensão tacanha da política e da identidade.

O que muitos resistem confrontar é a inconveniente constatação de que, tanto a margem de ação fornecida pelas chamadas “políticas de identidade” no regime neoliberal, quanto a acusação impotente destas como fonte do “neorracismo identitário” [sic] são incapazes de solucionar tanto os arroubos de violência racista quanto a estrutura ideológica do identitarismo. Este não pode ser o caminho para um enfrentamento do racismo que condiciona a violência sistêmica e a sociedade de classes brasileira. O que falta reconhecer é que o identitarismo foi gerado pela lógica cultural do capitalismo tardio em seu acelerado declínio econômico, político e social. Aí está a raiz do problema, e é nela que devemos mirar.

Sobre os autores

DOUGLAS RODRIGUES BARROS

é doutor em filosofia política, ensaísta e escritor autor dos livros “Racismo” e “Lugar de negro, lugar de branco?”.

CIAN BARBOSA

é doutorando em ética e filosofia política pela Unifesp.

Fonte

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