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Uma sutil dramaturgia de afetos de nosso passado recente

Uma sutil dramaturgia de afetos de nosso passado recente
Irineu Franco Perpetuo comenta “Um dia esta noite acaba”, de Roberto Elisabetsky, reforçando que a obra se impõe como leitura necessária no momento em que viúvas dos anos de chumbo desejam ressuscitar as trevas que por tanto tempo nos sufocaram.

Por Irineu Franco Perpetuo

O dia 25 de janeiro de 1984 é uma data que dificilmente se apagará da memória dos que estávamos em São Paulo nessa oportunidade. Artistas, intelectuais, celebridades e políticos de uma ampla faixa do espectro reuniram-se em um gigantesco comício na Praça da Sé, para pedir Diretas Já. Foi o dia em que a cidade parou para que o país pudesse voltar a andar.

Um evento tão grandioso parece implorar por ser contado de forma cinematográfica, e é isso que Roberto Elisabetsky faz em Um dia esta noite acaba. Porém, não do modo mais previsível. Sim, os capítulos são breves; o ritmo, ágil; e a narrativa, fortemente baseada em diálogos. Contudo, em vez de mobilizar inebriadas massas eisensteinianas em um painel épico da catarse coletiva, Elisabetsky opta por uma sutil dramaturgia de afetos, baseada em um jogo de revelações e lembranças.

O comício chega pela televisão a um apartamento de um bairro nobre de São Paulo. Ele é o catalisador dos conflitos da aparentemente harmoniosa família formada pela tradutora Fernanda, seu filho, o publicitário Ernesto, e Tomás, o segundo marido, executivo de uma multinacional. Em um segundo plano temporal, move-se Héctor, uruguaio, pai de Ernesto, primeiro cônjuge de Fernanda.

A narração em flashback da história de amor dos militantes universitários Fernanda e Héctor nos conduz à luta contra as ditaduras latino-americanas nas décadas de 1960 e 1970 – as repressões, guerrilhas, torturas, exílios. Obras-primas de autores como Mario Benedetti, Pablo Neruda, Julio Cortázar e Federico García Lorca constroem o pano de fundo cultural diante do qual agem personagens reais como Carlos Marighella, frei Tito de Alencar e o tenebroso delegado Sérgio Fleury.

Embora advirta que “nas passagens que envolvem personalidades e eventos históricos, a precisão dos fatos foi sacrificada a serviço da narrativa”, Elisabetsky é bastante minucioso em sua reconstituição de época, fornecendo dados sólidos que ajudam a entender um passado recente com o qual, contudo, ainda não acertamos devidamente as contas. No momento em que viúvas dos anos de chumbo desejam ressuscitar as trevas que por tanto tempo nos sufocaram, Um dia esta noite acaba impõe-se como leitura necessária.

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No dia 25 de janeiro de 1984, data em que a cidade de São Paulo comemorava 430 anos de fundação, milhares de pessoas se reuniam na Praça da Sé para gritar “Diretas, Já!” e exigir o fim de uma longa ditadura civil-militar. Enquanto assistem ao comício pela TV, Fernanda e seu filho, Ernesto, tentam encaixar esse novo acontecimento da história brasileira no mosaico do seu passado, marcado por um trágico desaparecimento. É nessa noite que recebem a visita de uma desconhecida, que traz revelações inesperadas sobre os eventos que marcaram suas vidas.

Neste romance histórico, Roberto Elisabetsky entrelaça a história de uma família com a história recente de nosso país, por meio de uma estrutura que alterna a ação das personagens no dia do comício com recortes históricos de sua trajetória e a do Brasil, desde o fim da década de 1950 até aquela fatídica noite. Ambas as narrativas convergem para um desfecho surpreendente e emocionante. Uma história sobre o preço pago pela sociedade brasileira na luta por direitos democráticos, em contraponto aos riscos que a democracia enfrenta novamente no atual momento político do país.

O livro de Roberto Elisabetsky tem texto de orelha de Irineu Franco Perpetuo, quarta-capa de Odilon Wagner e capa de Michaella Pivetti.

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Não perca a live de lançamento de Um dia esta noite acaba com Roberto Elisabetsky, Bernardo Kucinski, Irineu Franco Perpétuo e mediação de Tamy Ghannam, na TV Boitempo:https://www.youtube.com/embed/m8jjjrsxbr4?version=3&rel=1&showsearch=0&showinfo=1&iv_load_policy=1&fs=1&hl=pt-br&autohide=2&wmode=transparent

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Irineu Franco Perpetuo é jornalista, tradutor e crítico literário e musical. Entre suas traduções destacam-se Memórias de um caçador (Editora 34, 2013), de Ivan Turguêniev, e Anna Kariênina, de Liev Tolstói (Editora 34, 2021). É autor do livro Como ler os russos (Todavia, 2021). 

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