Provocações Teológicas

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FilosofiaMarxismo

A universalidade insurgente da camaradagem

A universalidade insurgente da camaradagem
POR
JODI DEAN
TRADUÇÃO
ARTUR RENZO
Abstraindo-se das identidades produzidas pelo sistema do capitalismo racial patriarcal, “camarada” postula uma relação política entre aqueles que se comprometeram a trabalhar juntos para derrubar esse sistema, criando uma nova forma de relação entre iguais que se encontram do mesmo lado de uma luta. Assim define a teórica comunista Jodi Dean o poder da camaradagem.

Esse trecho foi extraído do livro Camarada: um ensaio sobre pertencimento político, de Jodi Dean (Boitempo, 2021)


Apreocupação de que a figura do camarada seria masculina e branca surge da suspeita de que ela estaria comprometida por certo conteúdo positivo. Em vez de ser entendida como a figura de uma relação que engloba qualquer pessoa, mas não todas, ela é tratada como a imagem de uma única pessoa, uma pessoa que não pode ser generificada nem racializada (como se o homem branco não tivesse raça nem gênero). Abordei essa preocupação delineando algumas das formas pelas quais, na tradição comunista – particularmente no CPUSA –, o camarada não foi determinado pela identidade atribuída. “Camarada” dá nome a uma relação que ultrapassa sexo e raça e que traz consigo a expectativa de que o sexismo e o racismo serão combatidos e abolidos. Abstraindo-se das identidades produzidas pelo sistema do capitalismo racial patriarcal, “camarada” postula uma relação política entre aqueles que se comprometeram a trabalhar juntos para derrubar esse sistema. A libertação em relação ao que está dado permite uma nova forma de relação entre iguais que se encontram do mesmo lado de uma luta.

Para alguns ativistas contemporâneos bem versados na política de identidade, muitas vezes em decorrência das próprias experiências com machismo e racismo na internet e no interior dos movimentos, pode pairar certa suspeita de que “camarada” não seria formal o bastante nem vazio o bastante e que nenhuma explicação (por mais abrangente que seja) da inclusão de diferença positiva jamais será suficiente para desfazer tal suspeita. Uma forma de responder a esse receio é atentando para a dimensão negativa de camarada. “Camarada” implica tomar um lado, em vez de se recusar a reconhecer e admitir a existência de lados. Pertencer a um mesmo lado confere uma qualidade genérica à camaradagem: camaradas são indiferentes às diferenças individuais e são iguais e solidários no que diz respeito a seu pertencimento. A camaradagem exige, portanto, a dissolução dos apegos à fantasia de autos-suficiência, hierarquia e singularidade individual. Não há lugar para esse tipo de apego no camarada.

A apresentação da camaradagem narrada pelo romancista soviético Andrei Platónov em Chevengur, romance finalizado em 1928, joga luz sobre a negatividade do camarada. Longe dos camaradas disciplinados e corajosos que associamos aos partidos comunistas, os camaradas de Platónov são massas destituídas que não dispõem de nada além de uns aos outros. Ele apresenta essas massas como recém-chegadas a Chevengur, a aldeia na estepe que alcançou o comunismo. Escreve:

Os novos chevengurianos não dispunham de alegrias diante deles, tampouco esperavam alguma, e assim permaneciam satisfeitos com aquilo que todas as pessoas desprovidas de propriedades possuem, uma vida compartilhada com pessoas idênticas para eles, companheiros e camaradas para as estradas que percorrem.

Os camaradas aqui são o grau zero de possibilidade, aquilo que fica depois que tudo mais se foi, restos existindo em ruínas, no lugar negativo do começo. Em vez de tratar a camaradagem como a relação entre os bolcheviques, Platónov utiliza “camarada” em seu romance da mesma maneira que utiliza “comunismo”: como uma palavra que existe em um incipiente vocabulário pós-revolucionário de ruptura, anseio, possibilidade e perda. O novo mundo não chegou, mas há novas palavras, palavras que não chegam plenamente a dar conta do presente, ainda mais para quem viveu nas estepes nos últimos anos da Guerra Civil Russa. Isabelle Garo afirma: “Em Chevengur, comunismo é o nome de um mundo que não existe, que pode ser construído e que já está em ruínas. É também uma realidade mais subjetiva que objetiva, ou melhor, é um princípio de subjetivação”. Camaradagem é a relação necessária para construir o novo mundo, uma relação presente na – e caracterizada como – ausência de propriedade, nacionalidade e identidade reconhecível.

Platónov destaca a camaradagem dos “demais” ou “outros” – do povo errante, desprovido de propriedades, sem classe, pós-revolucionário e bastardo. Amontoadas para se aquecer na extremidade da cidade, essas massas seminuas, famintas e órfãs são a pobreza da pobreza. Sua unidade é corpórea, a conglomeração de seus diversos corpos internacionais. A palavra russa para “outros” ou “demais” é prótchie. Maria Chehonadskih explica que prótchie era usado nos primeiros documentos soviéticos quando a identidade de classe de uma pessoa era desconhecida. Prótchie são restos, erros e remanescentes, proletarizados até mesmo de sua identidade de classe. Os prótchie sem classe personificam o momento melancólico da revolução. As classes foram dissolvidas. A exploração acabou. Mas a nova sociedade ainda precisa ser construída. A presença dos outros remanescentes perturba as lógicas identitárias: mais do que não terem classe, são desprovidos inclusive de nacionalidade; “o tormento da vida e do trabalho em demasia havia tornado seus rostos não russos”. Um dos bolcheviques de Chevengur vislumbra nesses remanescentes um potencial revolucionário: “É uma classe de primeira qualidade a que você tem aí. Basta conduzi-la adiante que ela não vai nem chiar. Aqui estão seus proletários internacionais. Veja só! Eles não são russos, não são armênios, não são tártaros […] não são ninguém!”.

Os outros se caracterizam pela perda, por não serem absolutamente ninguém. Os demais carecem de uma identidade russa discernível – o rosto deles é internacional, rosto de nômades e mongóis. Eles não têm militância. Não são organizados. Mas sua camaradagem reserva um lugar para algo que se assemelha a um futuro. Seu estado de total destituição não produziu indivíduos atomizados, isolados em seus interesses egoístas, mas a camaradagem como o grau zero de relacionalidade necessário para seguir adiante. Se o comunismo é possível, é porque a abolição das classes e da propriedade permite aos camaradas recomeçar do zero.

A camaradagem dos outros remanescentes é um efeito de sua destituição. Escreve Platónov:

Os outros haviam feito de si mesmos pessoas de designação desconhecida; além disso, esse exercício de resistência e recursos internos do corpo tinha criado nos outros não apenas uma mente repleta de curiosidade e dúvida, como também uma agilidade de sentir-se capaz de trocar a felicidade eterna por um camarada que fosse um deles, uma vez que esse camarada não tinha pai nem propriedade alguma e, ainda assim, era capaz de fazer com que um homem esquecesse ambos – e em seu interior os outros ainda carregavam esperança, uma esperança que era confiante e bem-sucedida, mas triste como a perda. A precisão dessa esperança era a seguinte: se o principal – permanecer vivo e inteiro – fosse realizado com sucesso, então tudo o mais seria realizado, mesmo que fosse necessário reduzir o mundo a sua última sepultura.

Os camaradas nos permitem esquecer o status que o mundo nos confere: nascimento, família, nome, classe. Na ausência dessas relações, os camaradas desenvolvem um reflexo de solidariedade que vai além da felicidade pessoal. Escrevendo sobre Chevengur, McKenzie Wark comenta: “Camaradas são aqueles com quem compartilhamos a tarefa de vida de sustentar sua relação impossível com um mundo recalcitrante. Tudo o que podemos compartilhar são os mesmos desafios, e só somos camaradas quando compartilhamos todos eles”. A miséria compartilhada daqueles que a enfrentam contém esperança.

Há uma estranha oposição entre as palavras alemã e russa para camarada. A palavra em alemão, Genosse, está vinculada ao verbo geniessen, desfrutar. Ela está associada ao uso ou desfrute partilhado de algo, tendo uma relação comum com a propriedade nos moldes de um direito de uso, de usufruto. A palavra russa para camarada, tovarish, vem de tovar, que se refere a um bem à venda, uma mercadoria. A oposição entre as origens dessas palavras parece evidente em Chevengur. Platónov opõe propriedade e camaradagem. A aquisição de propriedade leva à perda da camaradagem; as pessoas depositam sua energia nas coisas, e não umas nas outras. Escreve Platónov:

Quando a propriedade fica entre as pessoas, as pessoas calmamente despendem seus poderes preocupando-se com essa propriedade, mas quando não há absolutamente nada entre as pessoas, aí elas passam a não se separar, protegendo umas às outras do frio enquanto dormem.

A camaradagem decorre da ausência de propriedade, não de seu uso nem de seu desfrute compartilhado. Como diz um dos personagens do romance: “E digo a você que só somos todos camaradas enquanto houver problemas idênticos para todos. Assim que houver pão e propriedade, ora, você nunca conseguirá arrancar um homem disso!”.

Essa oposição inicial entre as origens alemã e russa de “camarada” talvez seja apressada demais. O tratamento dado por Platónov a prótchie introduz outro tipo de propriedade, a autopropriedade coletiva dos desprovidos de propriedade:

Talvez esses proletários e demais servissem uns aos outros na condição de única propriedade e valor na vida uns dos outros e, por isso, se olhavam com tanta preocupação, não prestando tanta atenção a Chevengur, e cuidadosamente resguardavam seus camaradas das moscas, assim como a burguesia havia certa vez protegido suas casas e seu gado.

Não tendo nada além de uns aos outros, os demais não deixam, contudo, de ter algo, algo para proteger e cuidar. A fisicalidade íntima de espantar as moscas nos apresenta uma camaradagem dos destituídos na qual as coisas (tovary) desfrutam (geniessen) umas das outras; os camaradas praticam um autodesfrute coletivo, um usufruto coletivo do coletivo. Para que haja comunismo, os camaradas precisam desfrutar uns dos outros, recusando-se a deixar que a propriedade tome o lugar do outro.

Em Chevengur, o bolchevique Chepurny teme que as mulheres possam colocar em risco a preservação da Chevengur soviética. Ele insiste, assim, em mulheres camaradas, em mulheres com as quais os homens se relacionarão como camaradas, não por desejo de sexo e descendência.

Chepurny estava disposto a receber qualquer mulher em Chevengur, contanto que seu rosto estivesse marcado pela tristeza da pobreza e pelos anos de trabalho. Assim, tal mulher seria adequada apenas para camaradagem, não criaria diferenças em meio às massas oprimidas e provavelmente não despertaria aquela consciência dispersiva de amor entre os bolcheviques solitários.

Como todos os outros remanescentes, as camaradas mulheres são pobres, exaustas, tristes e carecidas. Elas não são diferentes de ninguém – é o que faz delas camaradas.

A camaradagem melancólica de Platónov nos ajuda a iluminar a formalização da falta de identidade, nacionalidade, classe e propriedade em uma relação política. A camaradagem dos outros não é uma abundância imaginária de felicidade e bem-estar. Pelo contrário, é o grau mínimo de relação necessário para a resistência, para a esperança. A camaradagem é uma condição necessária para o comunismo: o coletivo dos que desfrutam uns dos outros se recusa a deixar a propriedade tomar o lugar deles. A negação de identidade, nacionalidade, classe e propriedade produz algo novo, um novo espaço de relação que exerce uma pressão própria. Camarada é o grau zero do comunismo.

Žižek argumenta que “o grau zero nunca está ‘ali’, ele só pode ser experimentado retroativamente, como a pressuposição de uma nova intervenção política, de impor uma nova ordem”. Em Chevengur, isso se evidencia na maneira como os demais são com frequência apresentados, de acordo com a perspectiva da pressa bolchevique de Chepurny em construir o comunismo. A voz narrativa do romance resiste deliberadamente a ser localizada; ela não é uma descrição objetiva dos fatos nem a percepção subjetiva de um único personagem. As descrições dos demais se fundem com narrações dos pensamentos e desejos de Chepurny e transbordam para suas próprias reflexões. Por exemplo: “Chepurny percebeu que, em troca da estepe, das casas, dos alimentos e das roupas que a burguesia havia adquirido para si própria, os proletários da colina tinham uns aos outros, pois todo homem precisa ter alguma coisa”.

Para Chepurny, aqueles da colina ainda não apareceram como outros sem classe; ele os vê como proletários, como a força que trará à tona o futuro. É a partir da posição desse futuro comunista – que já está sendo construído em Chevengur – que a destituição dos outros remanescentes se manifesta como camaradagem. Da perspectiva do comunismo, a desolação não é o fim, é uma abertura para algo que não tínhamos condições de compreender antes; neste caso, a presença da coisa que existe quando tudo o mais está perdido: a camaradagem. O camarada é o grau zero do comunismo porque designa a relação entre aqueles que se encontram do mesmo lado da luta para produzir relações sociais livres, justas e iguais, relações desprovidas de exploração. Sua relação é política, é divisora. E é íntima, entrelaçada com a sensação de quão desesperadamente cada um depende do outro para que todos perseverem.

Indiferente às especificidades individuais contidas no conceito, camarada é uma figura de pertencimento político, uma forma de tratamento e um portador de expectativas para a ação. Como figura de pertencimento político, diz respeito à relação entre aqueles que se encontram do mesmo lado de uma luta. Como tratamento, refere-se àqueles engajados em lutas igualitárias emancipatórias por socialismo e comunismo. E na condição de portador de expectativas para a ação, camarada engendra a disciplina, a alegria, o entusiasmo e a coragem do trabalho político coletivo.

Sobre os autores

JODI DEAN

ensina teoria política e midiatica em Geneva, Nova York. Ela escreveu e editou onze livros, incluindo “The Communist Horizon” e “Democracy and Other Neoliberal Fantasies”.

Fonte

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