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Putin e os europeus unidos no paradoxo. Artigo de Alberto Negri

Putin e os europeus unidos no paradoxo. Artigo de Alberto Negri

“O motor da economia europeia está nas mãos de Putin e o dinheiro europeu está financiando o esforço bélico russo. Sairemos disso?”, escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 23-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Mesmo quando se tornou independente em 1991, a Ucrânia continuou ausente do imaginário europeu até 2014. Uma Europa não totalmente Europa. Ao reconhecer as repúblicas do DonbassPutin conseguiu uma operação magistral: torná-la uma nação “mártir”, apesar dos componentes fascistas e neonazistas.

Um país de duvidoso conteúdo democrático, com governos manobrados por oligarcas e uma administração corrupta, hoje é o símbolo da nova fronteira europeia.

Uma nação que se destaca por ter na consciência um milhão e meio de judeus exterminados com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e que nunca sequer processou um criminoso de guerra. No entanto, esta é a nova Europa, onde o Dia da Memória foi arrancado do calendário e a secular língua russa foi excluída dos idiomas oficiais.

Não é uma Europa bonita, aliás, é bastante minguada em princípios e valores, que Putin, no entanto, com suas decisões tornou aceitável e digna de ser defendida, negando em seu discurso sua existência como nação soberana. Ele criticou, como Tommaso Di Francesco apontou ontem, até mesmo Lenin, sem perceber que o despertar da Ucrânia não havia sido inventado por ele, mas já existia há tempo na história e no mito.

Putin hoje é atribuída a maior culpa, mas a guerra ou a “quase guerra” é um crime com cúmplices. Em primeiro lugar, os Estados Unidos, que permitiram que as relações com a Rússia se degradassem ao máximo: já se passaram quase três anos desde que se retiraram do tratado sobre mísseis intermediários na Europa e se recusaram a negociar outro acordo que levasse em conta uma Rússia bem diferente daquela em esfacelamento de trinta anos atrás. As próprias exigências de Moscou para conter a expansão da OTAN foram tratadas com desprezo, como se os EUA e a Aliança Atlântica tivessem empilhado gloriosas vitórias militares em vez de uma série de derrotas, do Afeganistão ao Iraque, da Síria à Líbia, para terminar recentemente com o Mali, onde Bamako preferiu se aliar à Companhia de mercenários russos Wagner em vez dos ex-colonialistas franceses e da Europa.

No entanto, os EUA haviam sido advertidos por George Kennan, o artífice da política de contenção da URSS, em 1997: “A ampliação da OTAN é o erro mais grave da política estadunidense desde o fim da Guerra Fria … essa decisão despertará tendências nacionalistas e militaristas antiocidentais … forçando a política externa russa na direção oposta à que queremos”. E este péssimo resultado foi alcançado com a crise ucraniana, a implantação de mísseis nas fronteiras da Rússia, mas também com o caso da OTAN no Kosovo em 1999 e os ataques a Kadafi na Líbia em 2011: em ambos os casos, a OTAN e os EUA não se limitaram a “proteger” a população como prometido, mas implementaram mudanças de regimes e status político de regiões inteiras, afundando outras no caos.

Mas talvez o pior tenha ficado para a Europa. Sendo impalpável uma política externa da União – Borrell é uma espécie de ectoplasma – a OTAN sobrepôs-se completamente a Bruxelas. Os países europeus seguiram como um rebanho o cão pastor estadunidense cujas iniciativas aceitaram, terminando, como no Afeganistão, por compartilhar com os EUA um desastre orquestrado essencialmente por Washington. Afinal, o objetivo dos estadunidenses nesta crise é enviar aos europeus duas mensagens: 1) eles devem pagar cada vez mais a conta da OTAN 2) eles devem parar de comprar gás russo.

E aqui chegamos ao paradoxo: hoje somos nós, europeus, que financiamos os esforços bélicos da Rússia para impor sua esfera de influência. De fato, estamos nas mãos de Putin, que por sua vez conta conosco como clientes de primeiro escalão. Desde que Moscou anexou a Crimeia em 2014, a dependência da Europa do gás russo foi aumentando. Em 2014, a União Europeia importou 30% de suas necessidades de gás de Moscou, mas a incidência subiu para 44% em 2020 e para 46,8% em 2021. Os dados para a Itália estão substancialmente alinhados com as médias europeias.

Putin sabe isso perfeitamente, tanto que Moscou apressou-se a tranquilizar os europeus, principalmente a Alemanha e a Itália, sobre o fornecimento de metano essencial para o funcionamento de suas economias. É por isso que, apesar das sanções decididas em Londres e Bruxelas, respira-se um ar constrangedor nas capitais do continente. A própria decisão alemã de bloquear o gasoduto Nord Stream 2 com a Rússia tem um significado mais político do que concreto: este gasoduto nunca entrou em operação.

Mas o melhor está por vir. O aumento do consumo e dos investimentos em 2021 e outros fatores contribuíram para a multiplicação do preço do gás na Europa de quatro a cinco vezes. Assim, a Rússia também multiplicou o faturamento da Gazprom, mesmo reduzindo significativamente a oferta. A isto acrescentamos que Moscou continua a ser o principal fornecedor individual de petróleo na Europa, com uma quota de 25%. Em suma, o motor da economia europeia está nas mãos de Putin e o dinheiro europeu está financiando o esforço bélico russo. Sairemos disso?

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