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O discipulado e a cruz de Cristo, segundo D. Bonhoeffer

O discipulado e a cruz de Cristo, segundo D. Bonhoeffer

“Como explica o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer ao refletir sobre o discipulado e a cruz, ‘assim como Pedro negou a Cristo, dizendo: ‘Não conheço tal homem’ (Mt 26.72), o discípulo terá de dizer o mesmo a si próprio'”.

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestre em Filosofia pela Unisinos.

Cristo crucificado e sua cruz são o símbolo máximo do cristianismo. Não só porque Jesus morreu crucificado, mas porque, apesar disso, ressuscitou. É exatamente esta “loucura” – este mistério, como preferimos chamar – que professamos e celebramos nas missas diárias no mundo todo na presença do próprio Cristo Vivo na Eucaristia: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição”.

Além de professarmos a fé em nosso Senhor, também somos chamados a imitá-Lo, carregando cada um a sua cruz. Mas o que isso significa na nossa vida prática? Que para seguir a Cristo, para andar diariamente com Ele, é preciso negar a própria vontade para fazer a Dele. Que o discipulado e a cruz são indissociáveis e as palavras de Jesus não dão margem para negociação:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue”. (Mc 8,34)

Muitas vezes, somos tentados a pensar que, na nossa vida cotidiana, carregar a cruz consiste apenas em enfrentar um momento de grande provação ou sofrimento e, enquanto este não chega, podemos ir vivendo como bem desejamos, segundo a nossa própria vontade, esquecendo-nos daquelas palavras:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue”.

Como explica o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer ao refletir sobre o discipulado e a cruz, “assim como Pedro negou a Cristo, dizendo: ‘Não conheço tal homem’ (Mt 26.72), o discípulo terá de dizer o mesmo a si próprio”.

Negar a si mesmo significa abnegação: desprendimento, superação do egoísmo por causa de uma pessoa, causa ou princípio, dedicação extrema. No sentido religioso: renúncia à própria vontade em função de anseios místicos ou princípios religiosos.

Quando se trata de compreender o sentido de “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue”, o teólogo explica:

“Abnegação é conhecer apenas a Cristo, e não mais a si próprio; é ver somente a Cristo, que está à nossa frente, e não mais o caminho que nos impõe tantas dificuldades. A abnegação diz tão somente: Ele vai à frente, apegue-se a ele”.

Em outras palavras, carregar a cruz no cotidiano da vida significa, antes de tudo, “matar” um pouco de nós mesmos a cada dia para vivermos não mais como nós mesmos, segundo nossos impulsos, paixões, vontades e desejos, mas para vivermos de outro modo, aquele ensinado no Evangelho, por amor a Cristo – e aqui está precisamente o ponto distintivo, a razão e a justificação da mudança. Justamente porque esse tipo de transformação é impossível de ser realizado do dia para a noite e não é uma mágica, mas um processo que leva uma vida toda, o Papa Francisco insiste na necessidade de vivermos o encontro pessoal com Cristo na oração, porque é somente apresentando a Ele as nossas vontades, paixões e misérias, suplicando por mudança e “matando” em nós mesmos tudo que nos desassemelha de Cristo, que, por graça, é possível levar a cabo este chamado: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”.

A cruz, diz Bonhoeffer, “é imposta a cada cristão” a partir do momento em que decide, com sinceridade de coração, seguir a Cristo:

“O primeiro sofrimento com Cristo, que cada um tem de vivenciar, é o chamado que rompe nossa união com este mundo. É a morte do velho ser humano no encontro com Jesus Cristo. Desde sempre, quem entra no discipulado entrega-se à morte de Jesus, põe a vida à disposição da morte. A cruz não é o fim terrível de uma vida feliz e piedosa; ela se encontra no início da comunhão com Jesus Cristo. Todo chamado de Jesus leva à morte. Quer se dê à maneira dos primeiros discípulos, que deixaram casa e profissão para segui-lo, quer se dê à maneira de Lutero, que abandonou o mosteiro e retornou à vida civil, em qualquer situação essa morte nos espera, a morte em Jesus Cristo, a negação de nosso velho ser humano. Jesus Cristo é, com sua palavra, nossa morte e nossa vida; por isso o chamado de Jesus leva o jovem rico à morte, pois ele só pode seguir o chamado matando sua vontade própria, pois todo mandamento de Jesus é a morte de nossos desejos e vontades”.

Logo, o cristão não é alguém que pratica a caridade porque tem qualidades superiores às dos demais mortais, ou porque vive uma ética altruísta por si mesmo, ou porque por sua livre e espontânea vontade se alegra em dar parte do seu dinheiro para os que necessitam mais do que ele, mas o faz porque essa é uma ordem recebida do Evangelho, que se impõe se de fato quiser seguir a Cristo. O mesmo é válido para todas as demais ações que pratica ou se esforça para praticar não por si mesmo ou sua superioridade ou adesão a um modelo ético, mas por pura obediência Àquele a quem deve a vida e deseja seguir. Até que a caridade seja transformada em virtude no coração do cristão e a ação praticada por dever seja transformada em uma ação praticada por amor, ele a prática com dor, sofrimento, dúvidas e até relutância porque lhe é dito que tem que abrir mão do que supostamente é seu para dar ao outro. Quando o cristão aprende a padecer por Cristo, o próprio Cristo faz com que a caridade e todas as demais ações praticadas por amor incondicional se transformem em uma prática alegre.

A leitura de Bonhoeffer sobre a relutância de Pedro, ou seja, a própria Rocha da Igreja, em aceitar o sofrimento e submeter-se à lei de Cristo, diz muito sobre nós mesmos e nossa dificuldade de abraçar a cruz definitivamente e de uma vez por todas. Mas as palavras do Senhor continuam ressoando: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”. Sobre o desejo de impedir sua realização na nossa vida prática, o teólogo adverte:

“Qualquer tentativa de impedir o que deve ser feito é satânica, mesmo a tentativa que provém do círculo dos discípulos, ou exatamente porque daí provém, pois é um esforço para impedir Cristo de tornar-se Cristo. O fato de ter sido justamente Pedro, a Rocha da Igreja, o culpado, e isso logo após ter confessado Jesus como o Cristo e ter sido por ele instituído, confirma que, já de início, a própria Igreja se escandalizou com o Cristo sofredor. Nota-se que, na qualidade de Igreja de Cristo, ela não quer aceitar tal Senhor, nem se submeter à lei do sofrimento. O protesto de Pedro revela sua relutância em ser enviado para o sofrimento. Foi assim que Satanás entrou na Igreja, ele que almeja vê-la livre da cruz de seu Senhor”.

Rejeitar o sofrimento significa ir na outra direção: fazer a nossa vontade, sempre e em todo momento, em qualquer circustância. Como o convite de Jesus é feito na condicional, “se”, a resposta depende de cada um.

Dizer sim a Jesus e, portanto, à cruz, assinala Bonhoeffer, tem uma implicação direta na existência de quem decide pelo discipulado:

“A cruz não é sofrimento relacionado à existência mundana, mas sofrimento próprio da existência cristã. A cruz não é, em essência, apenas sofrimento, mas sofrimento e rejeição, e rejeição entendida no sentido mais rigoroso, isto é, rejeição por causa de Jesus Cristo, e não por qualquer outro tipo de atitude ou confissão. (…) A cruz é a compaixão com Cristo, é o sofrer com Cristo. Somente aquele que está unido com Cristo, tal como se dá no discipulado, está de fato sob a cruz”.

E a rejeição começa a ser vivida no cotidiano do jeito mais simples e simplista e vem justamente daqueles que não compreendem a decisão radical de se submeter a Cristo e negar-se a si mesmo: na indiferença e na incompreensão que contaminam a própria Igreja entre aqueles que caçoam dos que definitivamente decidem não só caminhar no esforço diário de carregar a cruz, mas crucificar-se com Cristo.

Embora aos olhos mundanos o sofrimento com Cristo pareça terrível – e de fato é logo depois da decisão e ao longo da vivência da via purgativa -, ele é transformado em graça e alegria, mais uma vez, pelos mistérios de Cristo, que são impossíveis de serem compreendidos em sua totalidade, mas vivenciados por qualquer um que opta pelo passo decisivo. Quem diz sim à cruz, pode repetir e confirmar as palavras do teólogo:

“O sofrimento dos cristãos nada tem de estranho; antes, é muito mais graça e alegria pura. As histórias sobre os primeiros mártires da Igreja demonstram que Cristo confere um significado especial ao momento de maior sofrimento de seus discípulos com a certeza indescritível de sua proximidade e comunhão. Portanto, nos piores momentos do sofrimento que os mártires suportaram por causa de seu Senhor, foi-lhes concedida a máxima alegria e a bem-aventurança da comunhão com Cristo. Carregar a cruz comprovou ser a única possibilidade de vencer o sofrimento. Isso é válido para todos que seguem Cristo, porque foi válido para ele próprio”.

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