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Bolsonaro não está fora de combate e Lula tampouco eleito

Bolsonaro não está fora de combate e Lula tampouco eleito
POR
PHILIPPE SCERB
Mesmo com assassina gestão da pandemia e a catastrófica situação da economia, Bolsonaro guarda prestígio entre poderosos setores que deverão levá-lo ao segundo turno. A esquerda precisa retomar as mobilizações se quiser garantir o resultado eleitoral – para não depender novamente das nossas frágeis e vacilantes instituições burguesas.

Há alguns meses, o desespero com a atual situação do Brasil é proporcional, em alguns grupos, à convicção de que a derrota de Bolsonaro e a vitória de Lula nas eleições deste ano são favas contadas.

Diante da combinação de crise econômica, pandemia e distopia política, seria injusto criticar o otimismo de quem se agarra às pesquisas de intenção de voto como a uma boia que nos salvará do apocalipse.

O que não nos deveria impedir, porém, de chamar a atenção para os riscos dos quais ainda não escampamos. Primeiro, pensando em assegurar a maioria dos votos, há muita água para rolar debaixo dessa ponte até outubro. Com a máquina federal na mão, uma parte importante do Congresso comprada com emendas parlamentares e uma disputa que ensaia reproduzir o antagonismo moral e de classe que já tanto castigou a esquerda. Bolsonaro não está morto e Lula tampouco eleito.

Segundo, é provável que a disputa deste ano seja tudo menos normal. O clima de guerra pintado há algum tempo pelo bolsonarismo, com o armamento de parte da sua base, com a contestação do sistema eleitoral e com a descrição diabólica do adversário petista, indica que o resultado das eleições não será definido apenas nas urnas, mas também nas praças, nas conversas de esquina, nas redes sociais. Em outras palavras, a correlação de forças necessária para ganhar – e levar – a disputa presidencial deverá ultrapassar o voto e alcançar as ruas.

Se Lula tem vantagem razoável nas urnas, Bolsonaro parece melhor posicionado fora delas. Às vésperas da eleição de 2018 e ao longo do seu mandato, ele e seus aliados mais próximos fizeram o que há muito tempo não se via por aqui. Conformaram um campo político com identidade coletiva, capilaridade social – hoje confundida com presença no ambiente digital – e poder de mobilização.

A reinvenção da direita em meio a crise

Embora tenha 60% de rejeição entre os brasileiros, o bolsonarismo é uma força social real e ativa. O que se deve a muita coisa, mas sobretudo a um sentimento de pertencimento em falta no mundo político. Depois do apogeu da sociedade de indivíduos supostamente livres, autônomos, independentes em seus comportamentos e expectativas, forjada a partir da crítica a instituições e crenças tradicionais e coletivas, temos vivenciado a crise das promessas de bem-estar e reconhecimento que ela não entregou. Diante dessa crise, é a extrema direita que emerge como movimento político capaz de oferecer algum sentido para uma vida que resgata laços mais ou menos simbólicos e valores conservadores ligados à família, à religião e à nação.

Bolsonaro é a face desse fenômeno no Brasil. De modo que apesar da gestão assassina da Covid-19 e da situação catastrófica da economia, ele guarda prestígio e confiança entre setores que deverão levá-lo ao segundo turno das eleições presidenciais. Setores formados, essencialmente, por parte da classe média que faz a luta de classes olhando para baixo e para o passado, movida pelo medo de perder privilégios históricos e os símbolos que a distingue dos mais pobres. É sintomático que os melhores resultados de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto divididos por escolaridade e renda se deem entre as pessoas que concluíram o ensino médio e cuja renda familiar é de 2 a 5 salários mínimos.

A tragédia do governo Bolsonaro acaba pesando pouco diante da identificação que ele oferece a seus apoiadores. Resignados com um Estado que assegure a preservação dos bons costumes, do governo eles não esperam muito em termos de direitos e oportunidades. É do seu esforço individual que esperam tudo e aqui os valores conservadores encontram o espírito do neoliberalismo para conformar a base atual da extrema direita ao redor do mundo.

Um fenômeno que corresponde muito mais à lógica do populismo do que Lula, ou o lulismo. Para Ernesto Laclau, teórico incontornável no debate sobre o conceito “populismo”, essa lógica de ação política exige profundo antagonismo social e identificação com um líder capaz de articular diferentes grupos e demandas em torno de seu projeto.

Radicalizando, centrismo e incertezas

Embora conte com a intenção de voto de quase metade dos eleitores, Lula não tem com eles uma relação com a mesma qualidade que Bolsonaro tem com sua base. A faixa etária em que o ex-presidente tem maior vantagem sobre o adversário é entre os jovens de 16 a 24 anos, que sequer têm lembranças do seu governo e com quem ele não tem vínculos estabelecidos. Sua força vem, sobretudo, da impressão de que com ele as coisas vão melhorar. 

Não há tampouco antagonismo no projeto petista. Nem poderia ser muito diferente para uma candidatura que almeja a vitória. O que mais se espera do próximo governante é moderação, o retorno a uma certa normalidade econômica e política. Essas são as expectativas do eleitorado lulista. Enquanto a esquerda reclama da indicação de Geraldo Alckmin como vice, os mais pobres só querem que Lula ganhe e interrompa o ciclo insuportável de carestia. As classes médias progressistas, cuja identidade já se confunde com o ódio compartilhado de Bolsonaro, só querem dar o troco no neofascismo e tirá-lo de lá.

Mas se o conflito é um ingrediente imprescindível para essas eleições, Bolsonaro ajuda. Ao radicalizar contra o PT e a esquerda, ele promove uma polarização mesmo com Lula parado no centro do espectro ideológico. Se opor aos absurdos do presidente não significa se deslocar para a esquerda. O que não garante, porém, a mobilização necessária em caso de vitória apertada e contestação do resultado. Dá para confiar apenas na posição proativa do STF? A burguesia vai ficar do lado da institucionalidade ou de Paulo Guedes?

Mesmo que ganhe, cabe se perguntar: a estabilidade tão desejada é possível em um mundo marcado por conflitos que parecem antecipar um cenário de guerra mais ou menos fria? Internamente, será possível reproduzir a conciliação lulista e agradar tanto os de baixo quanto os de cima? Parece improvável.

Olhando para os lados, os governos de Argentina e México não fazem exatamente sonhar com a superação progressista das contradições colocadas pelo capitalismo de hoje. Mas se sustentam enquanto evitam maiores retrocessos e garantem pequenos avanços. 

Diante da nossa realidade, não resta dúvida de que é a melhor opção disponível. Talvez essa saída não esteja à altura dos desafios de uma ordem ainda cheia de sinais de esgotamento – e a resiliência do bolsonarismo é apenas a face mais cristalina do colapso. Mas é a moderação o que nos permite a atual correlação de forças. O Chile de Gabriel Boric parece destoar desse caminho. A ver até onde ele poderá chegar.

Sobre os autores

PHILIPPE SCERB

é doutor em Ciência Política pela USP.

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