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Vale do Silício: o trabalho como religião, o lucro como mística

Vale do Silício: o trabalho como religião, o lucro como mística

A religião se tornou uma ferramenta de gestão, e, como resultado, a própria religião começou a mudar no Vale do Silício, e talvez muito além dele.

Neste artigo, Fred Turner comenta o novo livro da socióloga estadunidense Carolyn Chen, intitulado “Work Pray Code: When Work Becomes Religion In Silicon Valley” [Trabalhar, rezar, programar: quando o trabalho se torna religião no Vale do Silício] (Princeton University Press, 2022).

Turner é professor da cátedra Harry e Norman Chandler de Comunicação na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Também foi professor de Comunicação na John F. Kennedy School of Government de Harvard e na Sloan School of Management do MIT.

O artigo foi publicado em The Los Angeles Review of Books, 08-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

Há pouco mais de 30 anos, em um estudo já clássico intitulado “The Human Motor” [O motor humano], o historiador Anson Rabinbach levou seus leitores de volta ao fim do século XIX, mostrando como as barulhentas fábricas daquela época de boom industrial deram origem a uma nova visão do ser humano.

Marxistas, gerentes e engenheiros sociais concordavam que o homem, a mulher ou mesmo a criança individual, assim como a própria fábrica, era projetado para ser um motor de produtividade. Os músculos eram as correntes e as engrenagens por meio das quais uma pessoa podia ganhar a vida. A saúde física dava evidência de fortaleza moral. A lassidão sugeria decadência ética.

Além disso, tanto o corpo quanto a fábrica modelavam o então novo entendimento de que o próprio universo era um sistema de troca de energia. Em suma, o corpo operário tornou-se um emblema vivo dos processos de fabricação a que servia, e a ordem hierárquica da fábrica espelhava a ordem natural de todas as coisas.

Hoje, habitamos um tempo muito diferente. Se as chaminés de Manchester, na Inglaterra, representavam a economia do século XIX, os escritórios abertos e as sedes com vastos gramados das empresas de tecnologia do Vale do Silício representam a nossa economia.

Como a socióloga Carolyn Chen demonstra amplamente, nas indústrias de software, os seres humanos ainda são motores de produtividade, mas não são os seus corpos que importam: são as suas mentes.

A socióloga estadunidense Carolyn Chen e seu novo livro (Foto: Divulgação)

Cem anos atrás, Frederick Winslow Taylor tentou treinar os corpos dos trabalhadores para se moverem com cada vez mais precisão, para se tornarem cada vez mais como máquinas. Hoje, Chen nos mostra como os líderes do Vale do Silício procuram sintonizar as mentes dos programadores e dos gerentes de produção para as frequências espirituais da inovação.

A religião se tornou uma ferramenta de gestão, e, como resultado, escreve Chen, a própria religião começou a mudar no Vale do Silício, e talvez muito além dele.

A pergunta é: por quê? “A importância espiritual do local de trabalho hoje representa uma mudança monumental na história do capitalismo moderno”, escreve Chen, e ela pode estar certa. Mas se ela estiver certa, o que está impulsionando a mudança?

“Work Pray Code” [Trabalhar, rezar, programar] nunca responde a essa pergunta, e dado o compromisso de Chen com o método etnográfico, de certa forma, nem pode responder. Chen acredita em gestos como sair para beber, fazer perguntas, escutar e acompanhar as pessoas que ela está estudando enquanto elas vivem as suas vidas.

Como uma boa jornalista de longa data, ela quer saber como é viver em um lugar que a maioria das pessoas nunca vê, e seu retrato da vida corporativa no Vale do Silício é tão vívido quanto qualquer outro já retratado.

No entanto, seu retrato é também uma composição, uma colagem construída a partir de entrevistas individuais para mostrar os efeitos das transformações econômicas e culturais de larga escala nas vidas individuais.

Além disso, as vidas em estudo pertencem apenas aos níveis mais altos dos trabalhadores do Vale do Silício. Como resultado, “Work Pray Code” apresenta um mapa extraordinariamente refinado do trânsito entre religião e busca de lucro entre a elite do Vale do Silício. Isso deixa em aberto a questão de saber se essas interações prenunciam mudanças no restante da economia estadunidense.

Quando Chen começou sua pesquisa, “a indústria de tecnologia era tão estranha para mim quanto Marte”, diz ela. Entre 2013 e 2017, ela realizou pouco mais de 100 entrevistas com profissionais da indústria de tecnologia, como “engenheiros, designers, empreendedores, executivos e capitalistas de risco”, assim como instrutores de yoga e de mindfulness, e coaches executivos que os atendiam.

Poucos ou nenhum deles aparecem com seus nomes reais, presumivelmente devido às preocupações do Conselho de Revisão Institucional de Berkeley, onde ela leciona. Da mesma forma, Chen nunca nomeia as empresas cujos empregados ela estudou, mas observa que visitou 15 firmas, desde as muito pequenas até às muito grandes.

Mesmo assim, ela claramente mergulhou na cultura de elite do Vale do Silício, jantando em lendários restaurantes corporativos, participando de workshops de bem-estar promovidos pelas empresas e entrevistando figuras bem no topo da escala de gestão.

O que ela viu e ouviu certamente jogará gasolina sobre o fogo do “techlash” [acrônimo formado a partir das palavras technology e backlash, significando forte e generalizada reação negativa ao poder e influência das grandes empresas de tecnologia] em curso na região. Mesmo enquanto os seguranças e os professores da região lutam para pagar o aluguel, seus programadores, designers e equipe de marketing de alto nível podem viver suas vidas inteiras nos agradáveis recintos do campus corporativo.

Como Chen aponta, muitas das pessoas que ela entrevistou tinham menos de 45 anos, às vezes com famílias, muitas vezes solteiras. Para esse grupo demográfico, as empresas de tecnologia oferecem refeições, creches, ingressos de cinema, o tipo de festas que eram chamadas de “mixers” nos anos 1950 e a chance de trabalhar ao lado de pessoas tão jovens e inteligentes quanto eles.

Os estilos de vida oferecidos são familiares aos leitores do romance “O círculo”, de Dave Eggers, assim como a motivação por trás deles. Como um gerente disse a Chen, “não podemos trabalhar com eles 24 horas por dia, sete dias por semana, se não lhes dermos flexibilidade”.

Junto com todos os confortos de um campus universitário, as empresas de tecnologia oferecem a seus empregados de alto nível um senso de propósito. Em um contexto histórico agudamente perspicaz e muito breve no início do livro, Chen relata uma virada na indústria estadunidense nas décadas de 1980 e 1990 voltada a melhorar as culturas corporativas e a inspirar os trabalhadores a cumprirem seu senso de missão pessoal no trabalho.

Vale do Silício tornou-se um banco de testes e um emblema desse processo, argumenta ela. Do lado secular, as empresas de tecnologia procuravam atender às necessidades materiais de seus trabalhadores de primeira linha; do lado espiritual, elas visavam a desposar os desejos de comunidade e de sentido de seus trabalhadores com a busca da empresa por um retorno financeiro.

É aí que entra a religião – ou, pelo menos, aquelas partes dela que podem ser secularizadas e transformadas em instrumentos para aumentar a produtividade. Chen abre o livro com a história de John – nome fictício –, formado pela Georgia Tech e amante de Cristo, que se mudou de Atlanta para o Vale do Silício em 2011 para ingressar em uma startup. Na Geórgia, a sua Igreja e fraternidade cristã proporcionavam uma vida social, uma filosofia de propósito e um senso de identidade.

Quando ele chegou à Califórnia, encontrou uma região muito mais secular. A empresa de John assumiu o lugar da sua fraternidade e da sua Igreja, dando-lhe amigos e um senso de significado. Se antes ele poderia querer conquistar o mundo para Cristo, agora ele se via comprometido em mudar o mundo por meio da tecnologia.

E, assim como o proselitismo que ele se sentia obrigado a fazer na Geórgia, a sua nova missão pesava sobre ele: “Nós nos sentimos muito sobrecarregados”, disse ele. “Temos que inventar essa coisa nova que vai mudar o mundo.”

Como Chen aponta, John havia abandonado uma região permeada pela religião eclesiástica por uma região permeada por uma espécie de espiritualidade ambiente. Em outra época, a sua história poderia ter sido a de um jovem em busca de fortuna nas minas de ouro ou de um beatnik emergente da Califórnia.

Califórnia sempre foi o lar de pessoas que buscam refúgio de mundos mais restritos, e, há pelo menos 100 anos, a região da Baía de San Francisco tem recebido tantas tradições religiosas orientais quanto ocidentais. Nos anos 1960, a obsessão da região com a autodescoberta ajudou a desencadear o “Verão do Amor” de San Francisco, os Acid Tests e a maior onda de construção de comunidades na história estadunidense.

Para John e seus colegas programadores, porém, as tradições espirituais da Bay Area e, mais especificamente, as técnicas de autoaperfeiçoamento da Nova Era, de psicoterapia de grupo, de mística hindu e de zen-budismo tornaram-se parte do kit de ferramentas de um gestor.

Como Chen aponta, muitos executivos do Vale do Silício acreditam que a Lei dos Direitos Civis de 1964 baniu a religião do escritório (e não o fez). Em parte por essa razão, eles evitam vigorosamente trazer praticantes explicitamente religiosos e suas teologias para a empresa. Em vez disso, as empresas trazem coaches para incentivar seus empregados a encontrarem o seu “melhor eu”, usando práticas outrora promovidas por monges e sadhus, e agora apresentadas como técnicas cientificamente aprovadas de autoaperfeiçoamento.

Os instrutores de ioga abandonam a mística e se concentram em ajudar os trabalhadores a reduzirem o estresse, controlando sua respiração. Os monges zen deixam as suas vestes em casa e ensinam os programadores multitarefas a focarem a sua atenção em uma coisa de cada vez.

Enquanto ela traça o modo como as corporações de tecnologia estão transformando práticas nascidas dentro da religião organizada em ferramentas para sobreviver ao caos do mercado, Chen torna visível como as corporações de todos os tipos curvam outras instituições em busca de lucro.

No entanto, um cético poderia perguntar: é realmente tão ruim assim praticar a respiração profunda? Alongar-se por uma hora? E é realmente relevante o fato de as técnicas terem sido despojadas das suas origens religiosas?

Como se vê, isso importa muito. No capítulo mais longo e mais convincente do livro, Chen explora o papel do Zen Budismo nas empresas de tecnologia. Incapazes de ganhar a vida ensinando o budismo tradicional, os mestres zen oferecem as técnicas de meditação de sua tradição para o mercado.

Alguns praticantes se consolam argumentando que a elite do Vale do Silício está sofrendo com empregos de alta pressão e com longas jornadas de trabalho – o que certamente ocorre – e que a missão de todos os budistas sempre foi eliminar o sofrimento. Se isso significa abandonar certos rituais religiosos e esconder certos dogmas, que assim seja.

Mas, como mostra Chen, muito mais coisas desaparecem além dos rituais. O budismo corporativo abandona o impulso igualitário de suas origens religiosas. Os modos de atenção outrora destinados a ajudar os praticantes a se verem como cidadãos pacíficos de uma teia interconectada da vida devem agora ser atrelados à busca de lucro, ao controle dos dados e, por meio disso, à dominação de outras pessoas. Em seu contexto religioso, a meditação zen é uma ferramenta para combater as predações do desejo desenfreado. Despojado desse contexto, ela é livre para servir à ganância corporativa.

Chen sugere que a ressignificação da religião dessa maneira é historicamente nova, mas, na verdade, os titãs corporativos dos Estados Unidos têm aproveitado a religião para motivar e controlar seus trabalhadores desde o início da Revolução Industrial. O que me parece genuinamente novo no mundo que Chen retrata são as combinações em jogo entre o estilo de trabalho e a religião.

A grande classe trabalhadora do Vale do Silício – não estudada aqui – ainda pode ir à igreja aos domingos, mas, para a elite, o trabalho é realmente a fonte de sentido e de missão. Na era industrial, eram os músculos que faziam os martelos balançarem, e era a energia que mantinha os fornos acesos. No nosso tempo, pelo menos no topo das indústrias do conhecimento, são a mente bem sintonizada, o estado de fluxo, a escaneamento dos padrões e dos sistemas, e a capacidade de ver a si mesmo dentro deles que ajudam uma empresa a crescer.

E para isso, o budismo da Califórnia é ideal.

Fonte

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